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Resenha do livro “Os da minha rua”, do angolano Ondjaki

Publicado no Brasil pela Editora Pallas, o livro Os da minha rua, do angolano Ondjaki, apresenta ao leitor 22 narrativas de uma infância com cheiro de saudade. O livro, ambientado em Luanda, por volta das décadas de 1980 e 1990, concede ao leitor brasileiro uma leitura com muitas referências sutis à cultura brasileira – da telenovela à música.

Ondjaki: o autor de Os da minha rua

O aclamado escritor angolano Ndalu de Almeida, mais conhecido pelos leitores e pela crítica literária pelo nome de Ondjaki, é poeta, prosador, cineasta; dono de uma vasta produção que perpassa o romance, a novela, o conto e histórias infanto-juvenis. No âmbito da literatura, destacam-se inúmeras premiações que o autor vem recebendo ao longo de sua vida. Em 2010, por exemplo, ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria “juvenil” e o Prêmio FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil), na categoria “literatura em Língua Portuguesa”, com o livro AvóDezanove e o segredo do soviético; em 2013 e 2014, ganhou novamente o Prêmio FNLIJ, também, na categoria “literatura em Língua Portuguesa”, sendo em 2013 com o livro A bicicleta que tinha bigodes e em 2014 com Uma escuridão bonita. Também, em 2013, recebeu o Prêmio José Saramago, com o livro Os transparentes. No campo da cinematografia, organizou, ao lado de Kiluanje Liberdade, o documentário Oxalá Cresçam Pitangas – Histórias de Luanda (2006).

Nesse reconhecimento que o autor vem recebendo, voltamos o nosso olhar para a consolidação do lugar do Ondjaki como umas das figuras literárias mais importantes da literatura angolana, ao lado de grandes nomes da literatura, como Pepetela, Ana Paula Tavares, Luandino Vieira, Boaventura Cardoso e José Luís Mendonça.

Ondjaki nasceu em Luanda, capital de Angola, em 1977. É filho de um engenheiro e de uma professora.

Algumas de suas publicações no Brasil

Antes mesmo da publicação de Os da minha rua, pela Pallas, outros livros do autor já circulavam pelos leitores brasileiros, como é o caso dos romances Bom dia, camaradas (2014) e Os transparentes (2013), ambos publicados pela Companhia das Letras. Para quem leu o Bom dia, camaradas, outros personagens aparecem em Os da minha rua, como a Rómina, o Bruno, o camarada António, os professores cubanos – inclusive, a cena de despedida que aparece no romance, aparece, com mais detalhes, em Os da minha rua.

Sabendo dessa presença marcante de Ondjaki no cenário literário brasileiro. Destaco algumas de suas obras publicadas no Brasil.

Pela Editora Pallas:

Há prendisajens com o xão (2011); A bicicleta que tinha bigodes (2012); Uma escuridão bonita (2013); Ombela (2014); Os vivos, o morto e o peixe-frito (2015); Verbetes para um dicionário afetivo (2016); O assobiador (2017); O convidador de pirilampos (2018); A estória do sol e do rinoceronte (2020); O livro do deslembramento (2020); Os da minha rua (2021); Materiais para confecção de um espanador de tristezas (2021); Vou mudar a cozinha (2022); Coisas desalinhadas (2023); O tempo do cão (2025)[1].

Pela Companhia da Letras:

Avódezanove e o segredo do soviético (2009); Ynari (2010); O voo do golfinho (2012); Os transparentes (2013); Bom dia, camaradas (2014).

Os da minha rua, de Ondjaki

A nova edição do livro Os da minha rua, do angolano Ondjaki, foi publicada em 2021, pela Editora Pallas, emocionando os leitores com histórias de uma infância de um candengue[2] marcada pelo afeto e pelas trocas com os pais, tios, primos, amigos e vizinhos da rua Fernão Mendes Pinto.

Os 22 contos que compõem a obra levam o leitor para o cotidiano em Luanda, no pós-independência do país. Nas 128 páginas do livro, acompanhamos a transição da criança passando para a (pré)adolescência, descobrindo a vida.  O narrador, já adulto, retoma de uma forma muito envolve e cativante, a memória, a infância e a autobiografia ficcionalizada, fazendo um entrelaçamento em meio as passagens do livro para dar lugar a lembranças singelas, atravessadas pelas relações familiares, com colegas da escola, amigos da rua e vizinhos. O pesquisador Pedro Eiras, em seu texto “Ciclos e iniciações – Caminhos da infância em Os da Minha Rua, de Ondjaki”, diz mesmo que “A maior parte da narrativa vem da voz adulta do personagem principal, que relembra anedotas e pequenas histórias de sua vida numa rua em Luanda. (Eiras, 2014, p. 4)

Os contos são bem curtos e podem ser lidos de forma separada ou sequencial, sendo todos narrados em primeira pessoa e, em alguns contos, o narrador é identificado pelo nome de Ndalu – nome de nascimento do autor. Essa questão pode levar o leitor a fazer essa relação entre com a vida do próprio Ondjaki, mas de uma forma ficcionalizada.

Durante a leitura, vivi algo que todo leitor passa, quando está lendo um livro bom: “Só mais um capítulo e eu paro de ler.”. No caso de Os da minha rua, foi: “Só mais um conto e eu paro de ler.”. Eu disse essa frase para mim mesmo até finalizar a leitura. O livro é tão cativante que você não quer parar de ler até finalizar.

Os contos que compõem a obra

Os 22 contos que compõe a obra são: 1. “o voo do Jika”; 2. “a televisão mais bonita do mundo”; 3. “o Kazukuta”; 4. “Jerri Quan e os beijinhos na boca”; 5. “os óculos da Charlita”; 6. “a professora Genoveva esteve cá”; 7. “a ida ao Namibe”; 8.“o homem mais magro de Luanda”; 9.“o último Carnaval da Vitória”; 10.“a piscina do tio Victor”; 11.“os quedes vermelhos da Tchi”; 12.“manga verde e o sal também”; 13.“bilhete com foguetão”; 14.“as primas do Bruno Viola”; 15.“o portão da casa da tia Rosa”; 16.“os calções verdes do Bruno”; 17.“o bigode do professor de Geografia”; 18.“no galinheiro, no devagar do tempo”; 19.“um pingo de chuva”; 20.“o Nitó que também era Sankarah”; 21.“nós chorámos pelo Cão Tinhoso”; e 22. “palavras para o velho abacateiro”. Ao final dos contos, tem-se uma parte intitulada “para tingir a escrita de brilhos lentos e silenciosos (troca de cartas)”, entre Ondjaki e a autora angolana Ana Paula Tavares – vencedora do Prêmio Camões de Literatura.

As histórias dos contos: Os da minha rua

É o vizinho que não tem o que comer; é a emoção de ver uma TV a cores; é a pureza de uma criança que não consegue mensurar a perda de um ente querido; é o pai que não aceita o relacionamento da filha com um rapaz negro; são as vizinhas que não enxergam bem; é a conversa com a professora sobre menstruação; é a ida ao Namibe e as descobertas sobre o corpo e as primeiras paixões; é a cerveja contrabandeada; é a saudade de uma época que passou e que não volta mais; é a inocência de acreditar numa piscina de Coca-Cola; é os quedes vermelhos da irmã que, mesmo sendo apertados, o menino decide usar; é o sabor de manga verde com sal; é a primeira carta amorosa para a colega; são as primas bonitas do amigo; é o cheiro de despedida da casa da tia; é a mudança repentina do colega por estar apaixonado; é o professor sem paciência; é a vizinha que não enxerga bem e vai para Portugal com o pai para tentar fazer consultas, enquanto os outros esperam o seu retorno ansiosamente; é a despedida dos professores cubanos; é a adaptação na nova escola; é a emoção na leitura do conto “Nós matamos o Cão-Tinhoso”; é o cheiro de despedida em dar adeus para os momentos de uma infância que passou e que não voltará mais. São essas as 22 narrativas de Os da minha rua, de Ondjaki. É hora do menino seguir em frente e dar adeus aos da sua rua.

“o voo do Jika”

“E eu, mesmo míudo candengue, fiquei a pensar nas razões do Jika não gostar nada de almoçar na própria casa dele.” (Ondjaki, 2021, p. 12)

De uma forma muito cuidadosa, Ondjaki aborda a falta de comida – fome –, no conto de abertura de Os da minha rua, intitulado “o voo do Jika”, em que foca na amizade entre as duas crianças, Ndalu e Jika. O conto é narrado em primeira pessoa pelo Ndalu e mostra o seu vizinho e amigo, Jika, perguntando se o Ndalu poderia convidá-lo para almoçar em sua casa. Durante a narrativa, pode-se perceber a ingenuidade da criança-narradora que parece não entender tais motivos que levam o seu amigo a sempre quer almoçar em sua casa. A imagem da ingenuidade é tão marcante que ambas as crianças chegam a pensar que poderiam voar com um guarda-chuva.

“A infância é uma coisa assim bonita: caímos juntos na relva, magoamo-nos um bocadinho, mas sobretudo rimos” (Ondjaki, 2021, p. 13)

“a televisão mais bonita do mundo”

“Nessa altura, em Luanda, não apareciam muitos brinquedos nem coisas assim novas. Então nós, as crian-ças, tínhamos sempre o radar ligado para qualquer coisa nova. Mal entrámos no quintal, vi uma caixa de papelão bem grande e restos de esferovite no chão. Isso só podia significar uma coisa: havia material novo naquela casa, podia ser fogão, geleira ou outra coisa qualquer, e mesmo acho que era essa a razão de estar toda gente com bebidas na mão.” (Ondjaki, 2021, p. 17)

No segundo conto da obra, o narrador Dalinho acompanha o seu tio Chico, com sua tia Rosa, à casa do Lima – vendedor de mobílias, e amigo de seus tios. Durante a narrativa do conto, Angola vive em Guerra Civil, entre os grupos MPLA e Unita, que lutam para controlar o país após a saída dos portugueses. Embora o conto não foque nesses conflitos políticos, é importante fazer esta menção, pois, mesmo que de forma indireta, aparecem alguns resquícios da situação do país. Vejamos no trecho a seguir: “Eu ainda avisei a tia Rosa, ‘cuidado com as minas’, ela não sabia que ‘minas’ era código para o cocó quando estava assim na rua pronto a ser pisado.” (Ondjaki, 2021, p. 16).

A pesquisadora Luara Pinto Minuzzi, ressalta em seu texto “As memórias de infância de Ondjaki: uma rua de lembranças”, que “A grave questão das minas implantadas durante a guerra […] surge de uma forma inocente, descontraída, até mesmo leviana, na voz da criança que pouco contato teve com os conflitos e combates de fato.” (Minuzzi, 2014, p. 6).

O que parecia ser apenas mais uma ida para compra de mobílias, torna-se uma descoberta radiante, por causa da televisão a cores.  “Chéeeeeee, essa televisão é bem esculú!”[3] (Ondjaki, 2021, p. 18). A partir dessa descoberta, o conto caminho para o fim, com os questionamentos que o narrador faz a si mesmo, pensando se os seus primos da Praia do Bispo iriam acreditar nele. Chama atenção a presença da telenovela brasileira Bem-amado, escrita por Dias Gomes; a espanhola Verão Azul e, até mesmo, a Pantera Cor-de-Rosa.

“o Kazukuta”

“Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:

– Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?” (Ondjaki, 2021, p. 22-23)

No terceiro conto da coletânea, “O Kazukuta”, tem-se a imagem do cão, simbolizando a velhice. A imagem do animal é usada de pano de fundo para o tio que anseia e fica angustiado para não contar sobre um acontecimento marcante na vida dos familiares.

“Jerri Quan e os beijinhos na boca”

“É que nós, as crianças, gostamos de responder só assim sem pensar muito no que afinal vamos dizer.” (Ondjaki, 2021, p. 28)

No quarto conto, “Jerri Quan e os beijinhos na boca”, acompanhamos o envolvimento proibido entre o Mateus e a Irene. O casal encontra-se às escondidas na casa do narrador, já que a mãe dele acoberta o envolvimento dos dois jovens apaixonados. Motivo para os dois se encontrarem assim é pelo fato de que o pai da jovem não aceita o envolvimento de sua filha com um rapaz negro. No conto, o narrador diz: “Ouvi dizer que o pai dela [da Irene] não gostava de negro […].” (Ondjaki, 2021, p. 25). O conto, mesmo que de forma muito indireta, aborda sobre o racismo. No dia em que o conto se passa, a Irene e o Mateus – acompanhados pelo narrador –  vão ao cinema Cine Atlântico assistir ao filme A grande desforra, filme de Jackie Chan, dirigido por Robert Clouse, mas o que era para ser um dia feliz, acaba em situação completamente embaraçada para o casal.

“os óculos da Charlita”

“Todas as filhas do senhor Tuarles viam muito mal. Mas a Charlita — que tinha os óculos grossos, amarelos e feios — ria de ser a única da casa que conseguia ver bem as telenovelas e os sorrisos nas bocas nítidas de todas as personagens.” (Ondjaki, 2021, p. 31)

Neste quinto conto que compõe a obra, o narrador nos apresenta a história de Charlita e de suas irmãs – todas com problemas de visão, o que faz com que tenha uma certa rotatividade no uso dos óculos durante a novela. A trama vai se desenvolver a partir dessas dificuldades que as meninas têm para enxergar. O pai das meninas, o senhor Tuarles, aparece como uma figura muito séria e muito explosiva, visto que em determinados momentos acaba ofendendo suas filhas para saírem de perto da TV. Eis um trecho do livro, em que o pai das meninas dirige-se a elas:  “ – Deem espaço, porra. Eu também quero ver.”. Chama atenção, também, durante a narrativa, a construção do Mausoléu do Agostinho Neto, poeta e o primeiro Presidente de Angola. “Os soviéticos abandonavam a obra do Mausoléu [..]”. Outras referências a filmes do Bruce Lee, Trinitá[4] e de ninjas aparecem nas conversas das crianças.

“a professora Genoveva esteve cá”

“A Genoveva ligou-me assustada, diz que tu lhe deste uma lição sobre a menstruação — a minha mãe ria.

– Ela esteve aqui e queria que eu te acordasse. Eu expliquei que tavas incomodada.

– Eu sei, filho, eu percebi.” (Ondjaki, 2021, p. 36)

No sexto conto, “a professora Genoveva esteve cá”, nós acompanhamos o narrador em uma situação que eu julgaria fora do convencional. Durante a leitura, eu esperava qualquer mentira que o narrador pudesse contar para falar que a sua mãe não poderia atender a professora, menos que ele fosse dar “uma aula” sobre menstruação para a professora que estava à porta, perguntando por sua mãe. O conto se passa em uma tarde de sábado, em que a professora Genoveva, amiga da mãe do narrador, que também é professora, vai à casa dela sem avisar. Orientado a não incomodar os seus pais durante as tardes de sono, o narrador acaba informando para a camarada professora que sua mãe não pode atendê-la, devido a indisposição causadas pelas cólicas. A conversa acaba se tornando muito embaraçada para a Professora que fica nervosa com toda a situação.

“A ida ao Namibe”

“A minha irmã riu, baixinho, e não disse a ninguém, mas eu sei que ela viu a maneira como eu olhava para a Micaela. É que a Micaela era muito bonita.” (Ondjaki, 2021, p. 39)

No sétimo conto dessa narrativa, vamos acompanhar mais uma aventura do nosso narrador, em sua ida ao Namibe, uma das 21 províncias de Angola, localizada no sul do país, com sua capital, a cidade de Moçâmedes. Aqui, nos deparamos com o narrador e sua família na casa do “primo Beto”, no sítio. Durante a narrativa, podemos observar uma transição na vida do nosso menino, o momento em que ele já não é mais criança e está caminhando para a pré-adolescência. É possível perceber o encantamento do menino pela personagem Micaela. Chama bastante atenção o livro que o narrador e as suas irmãs precisam ler, pois, mostra muito bem uma família preocupada com o bem estar dos filhos.

“o homem mais magro de Luanda”

“A campainha tocou mais. Eu já só mexia os olhos.

–  Vai lá ver – o tio Chico falou.

– O miúdo não vai sozinho – a tia Rosa agarrou-me no braço.

Os outros ficaram com cara de não-sei-quê. Era sempre assim, se houvesse uma pequena maka entre a tia Rosa e o tio Chico, todos paravam de beber. A tia Rosa levantou-se, fomos juntos. Era o Vaz.” (Ondjaki, 2021, p. 42)

O oitavo conto de Os da minha rua é um dos mais emblemáticos. Não só pela tensão causada durante o conto, mas, também, marcado pela inocência de um garoto em meio a uma situação muito complexa. Durante o conto, ambientado novamente na casa do Tio Chico, acompanhamos o narrador vendo o seu tio se encontrar com alguns amigos em sua residência para beber cerveja. O que poderia ser uma situação ocasional, torna-se bastante complicada, porque depois dos adultos beberem uma certa quantidade de cerveja, o narrador e a sua tia, são encarregados de irem buscar a cerveja estocado dentro do barril.

Durante a narrativa é visto que o tio do menino “tinha um contacto para ir buscar barris de cerveja” (Ondjaki, 2021, p. 42). A pesquisadora Laurene Veras, em sua dissertação de mestrado, diz que “Ter um contato é um sinal de que os barris de cerveja, sempre abundantes na casa do tio Chico, são produto de contrabando, dado que Luanda vivia sob um regime socialista e havia” (Veras, 2011, p. 51). Sabendo desse controle e que todos tinham um código para entrarem na casa do Tio Chico, a tensão é causada com a chegada do personagem Vaz, que não toca a campainha com o código secreto, gerando um clima pesado em todos que estão na casa.

“o último Carnaval da Vitória”

“A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais-velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente – nunca ninguém nos avisou que aquele era mesmo o último Carnaval da Vitória.” (Ondjaki, 2021, p. 45)

Durante os contos, percebemos que a despedida tem cheiro. Em muitas passagens do livro, percebemos que o cheiro está impregnado em muitos momentos para o narrador e em “o último Carnaval da Vitória” não é diferente. É o cheiro de um tempo que já passou e não volta mais, é o cheiro na memória afetiva de um tempo de inocência, da vida simples, dos dias em que o tempo passava e as crianças nem percebiam. É o cheiro da saudade do Carnaval da Vitória, em que o menino se encontrava com todos os seus primos, preparavam fantasias, pinturas e se divertiam; é o cheiro de saudade dos doces, do “arroz-doce só com cheiro de canela” (Ondjaki, p. 46); e da saudade com gosto de Fanta e Coca-Cola. É um dos contos mais sentimentalista do livro, justamente por mostrar os preparativos do Carnaval da Vitória.

“a piscina do tio Victor”

“Nessa noite eu pensei que o tio Victor só podia ser uma pessoa tão alegre e cheia de tantas magias porque ele vivia em Benguela, e lá eles tinham uma piscina de Coca-Cola com bué de chuinga e chocolate também” (Ondjaki, 2021, p. 54)

Neste décimo conto, mais que em todos os outros, vemos a presença das histórias orais contadas por um adulto. O Tio Victor, que é da Província de Benguela, vai para Luanda e lá, nos momentos com as crianças, conta muitas histórias. A imaginação flui com a forma que a figura do mais velho conta cada história. Pode-se perceber a inocência das crianças em acreditarem nas muitas histórias contadas pelo tio do menino. “Foi bonito: adormeci em Luanda, a sonhar a noite toda com a província de Benguela.” (Ondjaki, 2021, p. 54).

“os quedes vermelhos da Tchi”

“Cheguei à escola bem cedo. Os pés doíam-me, magoavam-me em vários pontos, até já me doía a parte do calcanhar também.” (Ondjaki, 2021, p. 57)

No conto “os quedes vermelhos da Tchi”, décimo primeiro do livro, temos o menino se preparando para o comício no largo 1° de Maio, Dia Internacional do Trabalhador. No conto, acompanhamos o menino se arrumando para ir ao comício até encontrar os quedes vermelhos que a sua irmã não usa mais, mas que aperta os seus pés, entretanto, o menino não abre mão de usá-los. Chamo atenção para algo muito interessante apontado por Veras, ao tratar sobre identidade. Segundo a pesquisadora (2011), o quedes vermelho dá uma “distinção”. Cito “Esta distinção não é gratuita, mas uma tentativa simbólica de Ndalu afirmar sua própria identidade em meio a uma ideologia uniformizadora.” (Veras, 2011, p. 55)

“manga verde e o sal também”

“Entre gargalhadas pequeninas, íamos dividindo o momento e a tarde, os olhares e os arrepios, os sons gulosos e a sujidade das mãos que pingavam esquebras de suco para as formigas beberem. Eram risos ao fim da tarde com banda sonora dos camiões e restos de sol só possíveis de acontecer com manga verde na boca, anestesiada com o sabor salgado do sal grosso, melhor porque roubado.” (Ondjaki, 2021, p. 63)

Ambientado na casa da avó Nhé, neste conto, percebemos algo muito diferente de todos os outros: uma certa atrocidade do menino para se vingar. No dia em que a história se passa, o personagem principal está na casa da avó com os seus primos, sob a responsabilidade de Madalena, personagem mais velha responsável pela casa, já que a avó Nhé estava ausente. Os meninos conseguiram pegar algumas mangas e queriam comer com sal, mas a única que poderia conseguir era a Madalena. Todos eles passam a tarde comendo manga com sal, até que o menino narrador lembra a Madalena sobre suas obrigações e recebe uma má resposta, fazendo com que todos gozem de sua cara. A tensão na narrativa vai se desenvolver a partir desse “conflito” entre os dois, até o menino se vingar e a Madalena sofrer as consequências.

“bilhete com foguetão”

“Como eu não sabia desenhar quase nada, tinha feito um pequeno foguetão desajeitado porque achei que fazer flores também já era de mais” (Ondjaki, 2021, p. 66)

Este é outro conto que conseguimos perceber um amadurecimento do menino, já não mais criança e se tornando, de fato, um adolescente com as primeiras paixões. Durante a narrativa, presenciamos os momentos de tensão do menino na tentativa de entregar um bilhete afetuoso para a sua colega de Petra. Ambientada em sua sala de aula, vemos o menino completamente nervoso, após ver a sua colega, tanto que não consegue prestar atenção em mais nada da aula. Após a saída da professora, ele resolve entregar o bilhete para outra colega para que ela entregasse à Petra. A narrativa tem um desfecho muito descontraído e muito bonito. O que poderia parecer constrangedor, acaba sendo um momento em que todo mundo pareceu compreender a situação.

“as primas do Bruno Viola”

“As festas na casa do Bruno Viola tinham sempre muitos bolos e salgados, música bem alta, boa jantarada tipo feijoada ou churrasco, e muita, muita gasosa. Mas nós, os rapazes da rua Fernão Mendes Pinto, gostávamos mesmo era das primas do Bruno. O Bruno Viola tinha umas primas muito bonitas.” (Ondjaki, 2021, p. 69)

Gostaria de começar este comentário a partir desse trecho “nós, os rapazes”, porque é o primeiro momento em todo o livro que ele não se refere como “nós, as crianças”, mas sim, “rapazes”, demonstrando um certo amadurecimento e uma transição da infância para a adolescência. Ambientado em uma festa, o conto “as primas do Bruno Viola”, apresenta uma narrativa muito diferente do que o leitor encontrou nos outros contos. Aqui, observamos a “paquera” dos rapazes com as moças.

No conto em questão, todos os meninos anseiam para dançar slow com uma prima do Bruno. O Bruno começa e, depois, os outros rapazes dançavam com as moças. Na vez do rapaz narrador, ele comenta que os outros ficaram com inveja, porque tocou uma música[5] do Eros Ramazzotti de 11 minutos, então, ele passou mais tempo dançando com ela. Após a dança, o conto se desenrola com o narrador e outra prima do Bruno que aparece querendo beijá-lo.

“– Dá-me um beijo na boca… – ficou a olhar para mim com uma cara quieta. – Com a língua também.” (Ondjaki, 2021, p. 72)

“o portão da casa da tia Rosa”

“Por isso, desde bebé, eu sempre fiquei na casa da tia Rosa. Passava lá as tardes com as filhas dela a ouvir os discos do Roberto Carlos. Ela era minha madrinha, mas para mim sempre foi a ‘tia Rosa’.” (Ondjaki, 2021, 73)

Este é um conto que, assim como “o Kazukuta”, mexeu bastante comigo, por tocar em uma temática muito sensível. Embora não fique explicitamente claro o que acontece com os dois personagens da casa que o narrador visita, fica subentendido um cheiro de infância de alguém que partiu daquela casa e não volta mais.

Durante o conto, acompanhamos o narrador visitando a casa de sua tia Rosa e relembrando dos momentos que passara lá durante a sua infância. A cena inicial é marcada pelo jovenzinho relembrando do trajeto que fazia até a casa de sua tia e marcado pela surpresa de não ver o carro do tio Chico estacionado, como de costume, o que ressalta que nem ele mesmo sabe o que aconteceu com os seus tios. Tem-se o trecho: “Achei estranho não ter ali fora nenhum carro do tio Chico.” (Ondjaki, 2021, p. 73).

“os calções verdes do Bruno”

“Era uma das cartas de amor mais bonitas que ia ler na minha vida, e eu próprio, anos mais tarde, ia escrever uma carta de amor também muito bonita, mas nunca tão sincera como aquela.” (Ondjaki, 2021, p. 78)

É o segundo conto que percebemos um certo amadurecimento não só no personagem principal, mas nos meninos ao seu redor. Imagino que todo adolescente encantado ou “apaixonado” por algum colega da escola já se arrumou melhor só por causa daquela pessoa. No conto “os calções verdes do Bruno”, observamos o Bruno em uma transformação que surpreende toda a escola, tanto que até a professora fica tão espantada que até interrompe a aula surpresa com o menino. O menino, naquele dia, não só mudou a sua aparência, o seu cheiro, mas, também, o seu modo de se comportar diante dos outros. O conto vai de desenrolar a partir dessa chegada e dessas mudanças do Bruno e de uma carta que ele escreve para a sua amada.

“o bigode do professor de Geografia”

“O camarada professor virou-se. Até nos pareceu que o bigode dele também estava irritado connosco. O Nuno parou de rir e teve medo.” (Ondjaki, 2021, p. 82)

Em “o bigode do professor de Geografia”, observamos o menino em mais um dia de aula e em uma situação muito corriqueira: os alunos instigando o professor de Geografia que acaba perdendo a paciência com os estudantes e falando palavras de baixo calão, fazendo com que todos fiquem assustados com a atitude do professor.

“no galinheiro, no devagar do tempo”

“– Se lá tiverem muitos bares, a Charlita vai voltar com os mesmos óculos.

Todo mundo ficou silencioso só nuns ruídos de matar os mosquitos que estavam a nos picar nas pernas.” (Ondjaki, 2021, p. 87)

Definitivamente o conto mais tocante de todo o livro. Em os “no galinheiro, no devagar do tempo”, acompanhamos um momento muito emblemático na vida das filhas do Senhor Tuarles. A Charlita viaja com o seu pai para Portugal na esperança de fazer uma nova consulta e adquirir novos óculos. Durante essa viagem, todos os da Praia do Bispo aguardam ansiosamente a volta da menina para acompanhar a telenovela “Roque Santeiro”, já que alguns vizinhos e amigos se reuniam na casa do Senhor Tuarles para assistir. O conto é marcado por uma cena de tensão no momento que a personagem Arlete indaga que se em Portugal tiver muitos bares, a Charlita voltará com os mesmos óculos, já que o seu pai não iria se controlar.

“um pingo de chuva”

“Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração.” (Ondjaki, 2021, p. 95)

Ler o conto “um pingo de chuva” é muito tocante, pois, de alguma forma, Ondjaki nos faz sentir o cheiro de saudade que o menino está sentindo no encontro que combina com os seus amigos para visitar os Professores Cubanos e despedir deles. Toda a cena de despedida é muito tocante. É possível perceber o cuidado que todos eles tiveram com os professores. A cena de despedida que acontece em Os da minha rua, já apareceu em outra obra do autor, em Bom dia, camaradas. É importante ressaltar que o livro Os da minha rua, foi publicado originalmente em 2007, enquanto o livro Bom dia, camaradas foi publicado em 2002. Chama atenção o fato de Ondjaki trazer aos seus leitores referências de uma cena que já aconteceu anteriormente em seu livro.

“o Nitó que também era Sankarah”

“Mas eu estava só a pensar nos meus colegas todos da Juventude em Luta. Quase uma vontade de lágrimas me queria aparecer nos olhos, e eu não podia bandeirar.” (Ondjaki, 2021, p. 100)

Se tentássemos encontrar um desfecho do que acontece com o camarada narrador do livro Bom dia, camaradas, quando ele diz para a Rómina que não gosta de despedidas e receia não encontrar os seus colegas no ano seguinte, na escola, em o “Nitó que também era Sankarah”, vemos esse receio se concretizar. Com a demora para voltar as aulas da Escola Juventude em Luta, e percebendo que as outras mães estão encaminhando os seus filhos para outras escolas, a mãe do menino mete cunha em seu primo Nitó para que ele consiga a transferência do menino para o Mutu Ya Kevela, onde Nitó é professor de inglês. O conto vai trazer o receio do menino de ir para outra escola, a adaptação com os novos colegas e os momentos de saudade de seus antigos amigos.

“nós chorámos pelo Cão Tinhoso”

“Era assim na oitava classe: ninguém lia o texto do Cão Tinhoso sem ter medo de chegar ao fim. Ninguém admitia isso, eu sei, ninguém nunca disse, mas bastava estar atento à voz de quem lia e aos olhos de quem escutava.” (Ondjaki, 2021, p. 103)

O conto “nós chorámos pelo Cão Tinhoso” é uma referência ao conto Nós Matámos o Cão-Tinhoso, do moçambicano Luís Bernardo Honwana. Ambientado em sala de aula da oitava classe, no colégio Mutu Ya Kevela, a professora de português faz uma leitura coletiva do conto com os alunos e percebemos a tensão causada na aula com a leitura em voz alta pelos alunos. O personagem principal já tinha lido o conto, 2 anos antes, na sexta classe, e menciona que lembra muito dos acontecimentos. Ele é um dos escolhidos para fazer a leitura e conseguimos perceber como o conto toca não só quem está lendo, como quem está ouvindo. Chama atenção o fato dos alunos esconderem o choro, com a justificativa de “Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes.” (Ondjaki, 2021, p. 105)

 “palavras para o velho abacateiro”

“O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança.” (Ondjaki, 2021, p. 114)

Julgo dizer que talvez seja o conto que mais tem o ar de despedida. Um conto em que fica para trás a memória, a infância e a vida na rua Fernão Mendes Pinto. Após a volta da praia, o dia parece um pouco cinzento demais. No último conto de Os da minha rua, “palavras para o velho abacateiro”, o adolescente deixa para trás todas as memórias vividas com os seus, após os seus pais decidirem que ele pode ir estudar fora do país. Em uma narrativa envolvente, conseguimos sentir a “dor” do personagem em deixar todos para trás e entender que mesmo que conheça outras pessoas, tenha um novo quarto e viva novos momentos, nada será como antes.

Considerações finais

Ler e escrever sobre algum livro do Ondjaki, particularmente, é uma tarefa de repleta de emoções: eu amo tanto os livros do Ondjaki que, às vezes, nem cabe no peito e começa a transbordar pelos meus olhos. É difícil não se emocionar com as aventuras e sensibilidade do menino em Luanda, descobrindo a vida. As memórias carregadas pelo narrador, muitas vezes, identificadas como Ndalu enchem o leitor de emoções pela simplicidade das falas, nos acontecimentos e mostra a inocência das crianças em meio a toda as situações que só os adultos conseguem perceber com seriedade. É um livro para quem gosta de narrativas curtas, mas muito envolvente.

REFERÊNCIAS

CINAFRICA. Rio de Janeiro, RJ. Disponível em: https://cinafrica.letras.ufrj.br/index.php/filmes/angola/123-ondjaki

EIRAS, Pedro. Ciclos e iniciações – Caminhos da infância em Os da Minha Rua, de Ondjaki. Cadernos do IL, Porto Alegre, n.º 49, dezembro de 2014. p. 94-108. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/cadernosdoil/article/view/47319/pdf_32 Acesso em: 29 jan. 2026

FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção, edição e organização). Ondjaki – memórias e contrastes. In: Templo Cultural Delfos, fevereiro/2023. Disponível no link: https://www.elfikurten.com.br/2015/05/ondjaki.html (acessado em 20/01/2026).

MINUZZI, Luara Pinto. As memórias de infância de Ondjaki: uma rua de lembranças. In: XXIX Seminário Brasileiro de Crítica Literária, XXVIII Seminário de Crítica do Rio Grande do Sul, II Encontro Nacional de Escrita Criativa, 2015, Porto Alegre. Anais do Seminário de Crítica Literária. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2014. p. 1-16. Disponível em: https://editora.pucrs.br/anais/seminario-critica-literaria/assets/31.pdf Acesso em: 23 jan. 2026

PEIXOTO, Mariana. Ondjaki lança cinco livros no país e diz que Brasil acolhe os africanos. Estado de Minas. Belo Horizonte. 05 set. 2021. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2021/09/05/interna_cultura,1302324/ondjaki-lanca-cinco-livros-no-pais-e-diz-que-brasil-acolhe-os-africanos.shtml#google_vignette Acesso em: 20 jan. 2025

QUEIROZ, Camila. Entrevista| Escritor Ondjaki conta sobre sua escrita, influências e relação com a Língua Portuguesa. Redenção. 25 jul. 2016. Disponível em: https://unilab.edu.br/2016/07/25/entrevista-escritor-ondjaki-conta-sobre-sua-escrita-influencias-e-relacao-com-a-lingua-portuguesa/ Acesso em: 20 jan. 2025

VERAS, Laurene. Ondjaki e a memória cultural em Bom dia camaradas, Os da minha rua e Avódezanove e o segredo do soviético. 2011. 100 p. Dissertação (Mestrado em Letras) Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011


[1] No perfil do Instagram (@eusendoleitor) tem um vídeo da pesquisadora Carla Taís, doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, indicando o livro. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DOjIVt3EVGH/

[2] Do quimbundo ndengue: criança.

[3] Ché: interjeição de espanto ou júbilo. Esculú: muito bom, corruptela de exclusivo.

[4] Imagino que sejam os filmes Faroeste.

[5] Eu tentei procurar nas músicas do Eros Ramazzotti alguma composição com duração de 11 minutos. Não encontrei nenhuma com exatos 11 minutos, mas achei a canção “Musica è”, com duração de 09:44. Não sei se estou correto, mas estimo que esta seja a música que o narrador menciona. 

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