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Resenha do livro “Blimundo: o boi que mexeu com o universo”, da cabo-verdiana Vera Duarte

Uma nova versão da história cabo-verdiana do boi Blimundo foi publicada no Brasil, pela Editora Nandyala, em 2024 – ano do centenário de Amílcar Cabral. A obra infanto-juvenil Blimundo, da cabo-verdiana Vera Duarte, com ilustrações de Samora Délcio, apresenta aos leitores brasileiros, em suas 38 páginas, uma história envolvente e muito emocionante d’O boi que mexeu com o universo.

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Vera Duarte: uma autora que inspira

“No princípio só havia flores despetaladas
sóis ardentes reverberando em achadas secas
e crianças nuas e famintas em bairros sujos e pobres ” (Duarte, 2024, p. 2)

Desde que comecei a ter contato com as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, deparo-me, com uma certa frequência, nas obras da cabo-verdiana Vera Duarte. Já li alguns de seus livros, como a obra poética Amanhã Amadrugada (2023), o romance A candidata (2012) – ambos publicados pela Editora Nandyala; e o Arquipélago da paixão (2024), também, poesia, lançado pela Editora Estampa. Com essas leituras, cheguei a uma conclusão de que é sempre bom ler os livros da Vera Duarte. Sempre volto para os seus poemas e sempre fico fascinado com o seu jeito de escrever sobre sentimentos, sobre as ilhas que compõe o arquipélago, sobre momentos tão singelos, sobre a vida, em geral. Tem algo na poesia da Vera que instiga e fascina, que faz o leitor sempre voltar para os seus poemas.

A poeta cabo-verdiana Vera Duarte é uma autora que inspira. Grande nome da literatura cabo-verdiana, Vera Valentina Benrós de Melo Duarte Lobo de Pina, nasceu em 2 de outubro de 1952, em Mindelo, na ilha de São Vicente. A autora é formada em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, é Juíza Desembargadora, poeta, contista e romancista. Vera Duarte tem forte atuação em Cabo Verde, tendo em vista a sua atuação como Ministra de Educação e Ensino Superior; Presidente da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania; Conselheira do Presidente da República; e membro das Academias Cabo-verdiana de Letras. Ao longo de sua carreira, Vera Duarte já conta com alguns reconhecimentos, como a condecoração do Presidente da República com a Medalha da Ordem do Vulcão; o recebimento da Medalha de Mérito Cultural, do Governo de Cabo Verde; e o Prêmio Norte-Sul dos Direitos Humanos do Conselho de Europa.

A circulação de obras da autora

“então

a tua voz
feita das vozes
de todas as vozes

ecoou” (Duarte, 2024, p. 2)

Além das obras mencionadas acima,demais títulos da autora também circulam por outras editoras brasileiras, como é o caso do livro Urdindo Palavras no Silêncio dos Dias (2024), pela Casa Brasileira de Livros; e o romance A vénus crioula (2025), pela Pontes.

Nesse cenário de circulação das obras da autora, é válido mencionar que Blimundo: o boi que mexeu com o universo é lançado em um contexto muito importante para as literaturas africanas de língua portuguesa, aqui, a cabo-verdiana, pelo fato de a circulação dessas literaturas ainda ser muito incipiente no mercado editorial brasileiro, e a obra ganhar um certo destaque. Chamo atenção, também, para o papel da Nandyala na disseminação das obras de Vera Duarte, tendo em vista que Blimundo soma-se a outras obras da autora já publicadas pela editora, como o próprio Amanhã amadrugada e A candidata, já mencionados anteriormente, juntamente do livro de crônicas A palavra e os dias (2013) e o infanto-juvenil AI, SE UM DIA… (2019).

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Homenagem a Amilcar Cabral (Abel Djassi): poeta, revolucionário, líder.

“do meu Paul florido
a Nova Sintra a bela
cruzando o céu das ilhas
circulou por África
pelas terras verdes da Guiné
pelas terras secas do Sudão” (Duarte, 2024, p. 2)

A obra Blimundo: o boi que mexeu com o universo corresponde a um reconto de uma história da tradição oral de Cabo Verde, no que diz respeito à atuação do ativista, intelectual e engenheiro agrônomo Amílcar Cabral, grande nome da luta anticolonial na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde, frente ao PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), fundado em 1956. No portal do Governo da Paraíba, tem uma fala da Vera Duarte, na qual a autora diz mesmo que:

“O livro é uma homenagem ao centenário do nosso herói e fundador da nacionalidade cabo-verdiana e guiniense, Amílcar Cabral.”

A relação de Amílcar Cabral com os dois países é muito identitária, já que o intelectual é filho da guineense Iva Pinhel Évora e do cabo-verdiano Juvenal Lopes Cabral. Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, na região central da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1924, na época em que o país ainda era uma colônia portuguesa, mas se mudou, ainda criança, com os seus pais para Cabo Verde, onde realizou os estudos primários e, mais tarde, partiu para Portugal, para realizar o curso de Engenharia Agronômica.

Em 1956, juntamente de outros ativistas, Amílcar fundou o Partido Africano da Independência (PAI), que viria a ser, em 1962, o para Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Muito jovem, Amílcar Cabral foi assassinado aos 47 anos, em 20 de janeiro de 1973. Aqui, eu tentei trazer um panorama geral da história de Amílcar Cabral para contextualizar com a narrativa do livro, entretanto, para mais informações sobre o ativista, no arquivo Casa Comum, da Fundação Mário Soares, você encontra um acervo completo com dados biográficos, poemas do autor, fotos exclusivas, correspondências trocadas e muitos dados sobre articulações do PAIGC.

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Blimundo: o boi que mexeu com o universo, de Vera Duarte

“e fez-se ouvir na Europa
fez-se ouvir nas Américas
fez-se ouvir pelo mundo” (Duarte, 2024, p. 3)

A poesia é muito presente nas obras da poeta Vera Duarte. No livro Blimundo, por exemplo, que, embora seja uma escrito em prosa (conto), é iniciada e finalizada com poemas. No início, tem-se um poema de abertura da autora “O poema primordial…”, dedicado ao poeta Amílcar Cabral; e no final, um trecho do poema “A minha poesia sou eu”, do próprio Cabral.

Em “O poema primordial…” chamo atenção para o nome “Abel Djassi”, pois, segundo a pesquisadora Marcela Magalhães, em “Amilcar Cabral (Abel Djassi), um dos maiores revolucionários anticoloniais do mundo”:

“O pseudônimo Abel Djassi simbolizava o desejo de Amílcar Cabral de se integrar profundamente aos combatentes, não como um líder distante ou um teórico isolado, mas como um igual — alguém que, tal como os camponeses e guerrilheiros ao seu lado, empunhava não apenas armas, mas o sonho coletivo da libertação. Cabral sempre entendeu que a revolução não se construía por meio de ações individuais, mas pela força organizada das massas.” (Magalhães, 2024).

No poema, o eu lírico, ao longo dos versos, manifesta a sua profunda admiração por alguém que lutou, combateu e fez a sua voz circular pelas Américas, pela Europa e pelo mundo, e não deixou a sua própria nação se “aprisionar no seu destino colonial”. A dedicatória do poema a Amílcar Cabral reforça a sua admiração pelo intelectual que foi um grande líder.

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

A história de Blimundo

“Do teu gesto singelo
Do teu olhar solidário
Do aperto caloroso da tua mão” (Duarte, 2024, p. 3)

O início da narrativa de Blimundo: o boi que mexeu com o universo, marcada por “Era uma vez”, indica uma característica profundamente ligada ao universo da literatura oral e infanto-juvenil. Muito longe de ser apenas uma literatura para entreter o público jovem, Blimundo carrega uma profunda reflexão sobre a atuação de Amílcar Cabral. A obra também é marcada por animais que falam humanos e carrega uma moral.

Na história, a caracterização do personagem central, Blimundo, é de um “boi possante, de pele negra de azeviche e muito bonito” (Duarte, 2024). O personagem trabalha dia e noite, e o que mais o animava era ouvir canções do rapaz tocador que vivia tocando para ajudar os trabalhadores a produzirem mais e para o rei, nas grandes festas que ele dava.  Na narrativa, vemos que o Blimundo se apaixona pela filha mais nova do rei, mas sem esperança e, também, como se sentia sobre-explorado, resolve fugir em busca de sua liberdade. Como o rei passou a ter prejuízos e empobrecer, manda os soldados prenderem Blimundo e o trazerem de volta para o palácio, mas todas as tentativas acabam sem sucesso.

A rainha, que sabia que Blimundo gostava de música e de sua filha, aconselha o rei a mandar o jovem tocador ir em busca do boi, com a promessa de que ele lhe daria a mão de sua filha em casamento. Nessa altura, Blimundo já andava por montes e vales procurando companheiros para libertarem a terra do que rei que vivia explorando o seu povo.

A retomada das Ilhas

“Brotou o sangue redentor
Do poema primordial
Com que construímos o futuro” (Duarte, 2024, p. 3)

Quando escuta a canção do rapaz tocador, Blimundo elabora um plano e decide ir falar com ele para saber se, de fato, o que estava dizendo era verdade. O rapaz confirma e, então, Blimundo diz para eles irem para o palácio. Entretanto, o que o Rapaz Tocador não esperava, é que Blimundo não o levaria para o palácio, mas para outro lugar, junto dos rebelados, “Um grupo de gente que não quer mais ser explorado pelo Rei” (Duarte, 2024). Embora ele tenha se assustado, no primeiro contato, acaba cedendo e concordando que não gostava de ver o Rei explorando o seu povo.

Blimundo explica o plano e, junto dos outros companheiros e do rapaz tocador, partem para o palácio para derrotarem o rei e libertarem o seu povo. Para a surpresa do leitor, alguns soldados do Rei, quando tomaram ciência do que estava acontecendo, lutaram junto dos rebelados, já que não queriam servir ao Rei.

Ao final da narrativa, percebemos que:

“Blimundo, na verdade, era um príncipe africano que tinha vindo da Guiné na condição de escravizado. Ele se convertera num revolucionário disfarçado, que lutava pela liberdade do seu povo. E a maior parte das mulheres e dos homens tinha-se posto do lado de Blimundo!” (Duarte, 2024).

Com toda a situação do palácio,

“O Rei, a Rainha e alguns dos filhos, vendo que tinham perdido a batalha, prepararam-se para deixar o palácio e rumar ao seu país distante…” (Duarte, 2024).

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

As representações: outras histórias de Blimundo

“E porque amo
o teu gesto e a tua gesta
ofereço-te nesta canção
o som desta nação
que não deixaste aprisionar
no seu destino colonial” (Duarte, 2024, p. 3)

Em uma outra versão da história de Blimundo, intitulada “Blimundo ou O mito fundador da cabo-verdianidade”, também da Vera Duarte, disponível no portal Observatório da Língua Portuguesa, a autora ressalta que

“Esta minha versão tem a seguinte leitura: em linguagem metafórica, o Blimundo é o africano escravizado trazido do continente para as ilhas onde era a principal força de trabalho; o rei simboliza o colonizador; e a codezinha do Rei é a mulher branca do reino despreconceituosa que se casa ou se cruza com o homem negro dando origem à  mestiçagem.”

Embora as duas versões apresentem alguns distanciamentos, a representação da mestiçagem fica evidente nas duas narrativas. Segundo a Professora Norma Lima, em seu texto “Estórias do boi Blimundo, de Cabo Verde: liberdade e diversidade”[2],

“A perspectiva da estória para ela [Vera Duarte] é a de enaltecer a diversidade que valoriza as etnias em comunhão que marcam a sociedade crioula na qual não aconteceu o apartheid entre brancos e negros.”. (Lima, 2021, p. 64).

Além disso, a pesquisadora apresenta uma fala de Vera Duarte, em seu texto:

“esta mestiçagem também resultou do cruzamento forçado e violento do senhor branco com a sua escrava negra, homem negro com a mulher branca, etc” (Duarte apud Lima, 2021, p. 64).

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Considerações Finais

Culminando para o fim deste texto, vale mencionar que existem outras versões da história de Blimundo disponíveis na web. Recomendo a obra para trabalhar em sala de aula, pensando a valorização da história de Cabo Verde, de Amílcar Cabral e das tradições cabo-verdianas. A musicalidade, embora não tenha sido trabalhada nesta resenha, é muito importante para o desenvolvimento da narrativa. Em outras versões, mesmo com alguns distanciamentos de alguns fatos, a música é o que sempre está presente e atrai o boi.

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

REFERÊNCIAS

CASSAMAA, Daniel Júlio Lopes Soares. Amílcar Cabral e a independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. 2014. 95 p. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, 2017.

DUARTE, Vera. Blimundo ou O mito fundador da cabo-verdianidade. Observatório da Língua Portuguesa. 2021. Disponível em:https://observalinguaportuguesa.org/blimundo-ou-o-mito-fundador-da-cabo-verdianidade/Acesso em: 17 de mar. de 2026.

DUARTE, Vera. Blimundo: o boi que mexeu com o universo. Belo Horizonte: Nandyala, 2024, 38 p.

DUARTE, Vera. WIKIPÉDIA. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Vera_Duarte. Acesso em: 17 de mar. de 2026.

FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Amílcar Cabral – o poeta da liberdade. Templo Cultural Delfos, setembro/2015. Disponível no link: https://www.elfikurten.com.br/2015/09/amilcar-cabral.html#google_vignette  (acessado em 17/03/2026).

FREIRE, Paulo. Amílcar Cabral: O Pedagogo da Revolução. Geledés. Disponível no link: https://www.geledes.org.br/amilcar-cabral-por-paulo-freire/. Acesso em: 17 de mar. de 2026.

Governo da Paraíba. Escritora cabo-verdiana Vera Duarte Pina defende no FliParaíba educação como pilar fundamental do futuro descolonizado. Disponível em: https://paraiba.pb.gov.br/noticias/escritora-cabo-verdiana-vera-duarte-pina-defende-no-fliparaiba-educacao-como-pilar-fundamental-do-futuro-descolonizado Acesso em: 17 de mar. de 2026.

LIMA, Norma Sueli Rosa. ESTÓRIAS DO BOI BLIMUNDO, DE CABO VERDE: LIBERDADE E DIVERSIDADE. Mulemba. Rio de Janeiro, v. 13, n. 24, p. 57 – 72, jan. /jun. 2021. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/mulemba/article/view/41028

Livro di Téra. A história de Blimundo. Disponível em: https://livroditera.blogspot.com/2006/11/histria-de-blimundo.html Acesso em: 17 de mar. de 2026.

PAULA, Marcela Magalhães de. Amilcar Cabral (Abel Djassi), um dos maiores revolucionários anticoloniais do mundo. COMBATE Racismo Ambiental. Disponível em: https://racismoambiental.net.br/2024/09/13/amilcar-cabral-abel-djassi-um-dos-maiores-revolucionarios-anticoloniais-do-mundo/ Acesso em: 17 de mar. de 2026.

PINA, Vera Duarte. MEER. Disponível em:  https://www.meer.com/pt/authors/1510-vera-duarte-pina Acesso em: 17 de mar. de 2026.

SILVA, Estevam. 100 anos de Amílcar Cabral, o libertador da Guiné-Bissau. OperaMundi. São Paulo. Disponível em: https://operamundi.uol.com.br/pensar-a-historia/100-anos-de-amilcar-cabral-o-libertador-da-guine-bissau/. Acesso em: 17 de mar. de 2026.


[1] Guineense.

[2] No texto, a pesquisadora se refere a segunda história disponível no Portal do Observatório da Língua Portuguesa. Estou citando, por causa das semelhanças nas narrativas.   

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