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Resenha do livro “Ondula, savana branca”, do angolano Ruy Duarte de Carvalho

Publicado originalmente em 1982, Ondula, savana branca, obra poética de Ruy Duarte de Carvalho, mostra bem as interfaces entre a formação e a atuação como antropólogo do autor e a sua experimentação poética.

Ruy Duarte de Carvalho

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Cineasta, antropólogo, escritor, poeta, artista plástico, e autor de obras que atravessam as várias formas da linguagem e registros que vão da etnografia ao cinema, Ruy Duarte de Carvalho foi um dos grandes nomes da literatura angolana. Ele nasceu em Santarém, Portugal, em 22 de abril de 1941, e faleceu em Swakopmund, Namíbia, em 12 de agosto de 2010, mas foi em Angola que viveu a maior parte de sua vida, tornando-se oficialmente angolano após a independência do país. É Angola, em especial, o sul do país, o palco para a construção do seu fazer poético.

O pesquisador Guilherme Flores, em “Quando um poeta vira encruzilhada”, menciona que o recebimento de sua nacionalidade angolana é devido a sua participação na luta pela libertação do país. Cito: “Mas em 1971 ele segue de volta a Angola, onde irá organizar sua vida e sua obra, […] bem como participar da luta pela libertação da então colônia. Tanto é assim, que em 1983 recebeu nacionalidade angolana […]” (Flores, 2022). No entanto, no Posfácio da edição brasileira de Ondula, savana branca, a pesquisadora Prisca Agustoni afirma: “Embora o poeta não tenha se envolvido na luta política pela independência…”, tendo, assim, esse conflito de informação entre os textos acerca do envolvimento do autor na luta pela independência de Angola. Entretanto, o que nos interessa aqui é esse lugar de Ruy Duarte como angolano.

A circulação de sua obra no Brasil

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Antes mesmo de sua poesia chegar ao Brasil, outras obras do autor já circulavam nas mãos dos leitores brasileiros, como é o caso de Vou lá visitar pastores, publicada pela Editora Gryphos, em 2004, e Os papéis do inglês, publicada pela Companhia das Letras, em 2007. No entanto, até o ano de 2022, sua obra poética só era acessível a quem tivesse as edições originais ou a reunião de sua poesia completa, em Lavra, Poesia reunida, publicada em 2005, pela Editora Cotovia, em Lisboa.

Conforme observa a pesquisadora Prisca Agustoni, no posfácio da edição brasileira de Ondula, savana branca (2022), Ruy Duarte é mais conhecido no meio acadêmico do que pelo público em geral no Brasil, reforçando a necessidade de estudos que ampliem o debate crítico sobre sua obra.

Ondula, savana branca no Brasil

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

A publicação de Ondula, savana branca, no Brasil, insere-se em um contexto mais abrangente de publicações de autores africanos de Língua Portuguesa no mercado literário brasileiro, especialmente, pela recente e crescente onda de publicações de autores africanos de Língua Portuguesa, por meio de Editoras como Nandyala, Kapulana, Pallas, Mazza, Companhia das Letras, entre outras, em que se concentram os grandes nomes da literatura africana, como: Pepetela (Angola); Luandino Vieira (Angola); Ondjaki (Angola); Vera Duarte (Cabo Verde); Abdulai Sila (Guiné-Bissau); Paulina Chiziane (Moçambique); Mia Couto (Moçambique); Conceição Lima (São Tomé e Príncipe), e assim por diante.

Há outras editoras que, embora não tenham como foco a publicação de autores do outro lado do Atlântico, ainda assim, publicam em seu catálogo, como é o caso da Editora Fósforo, com a publicação do livro Ondula, savana branca (2022), do angolano Ruy Duarte de Carvalho, no selo Círculo de Poemas.

As edições de Ondula, savana branca

Ondula, savana branca conheceu quatro momentos editoriais distintos, antes de ser publicado no Brasil: a primeira edição é de 1982, pela Sá da Costa, em Portugal; a segunda, de 1989, pela UEA (União dos Escritores Angolanos); a terceira, de 2005, em Lavra, poesia reunida 1970-2000, pela Editora Cotovia, também em Portugal; e a quarta, de 2015, em Angola, pelo programa cultural da Angola pós-independente, Ler Angola, que estimula o conhecimento e a leitura da literatura angolana, com o apoio do GRECIMA (Gabinete de Revitalização e Execução da Comunidade Institucional e Marketing da Administração), no 3ª volume da Coleção 11 Clássicos da Literatura Angolana.

Finalmente, em 2022, a obra chegou ao Brasil, em um volume que reúne dois livros do autor: Ondula, savana branca (1982) e Observação directa (2000), publicado pela Editora Fósforo, no selo Círculo de Poemas. Esses diferentes momentos editoriais permitem observar a consolidação de Ondula, savana branca como referência da literatura angolana, sobretudo a partir da edição de 1989, em termos locais. Entretanto, ainda assim, é no eixo Brasil-Portugal que a crítica literária tem se organizado mais fortemente em torno do livro e da obra de Carvalho, revelando a centralidade desse circuito no processo de recepção e consagração de seu fazer poético.

A obra poética de Ruy Duarte de Carvalho

Exatos 40 anos separam a primeira e a última edição de Ondula savana branca, publicada no Brasil. A obra mostra bem as interfaces entre a formação e a atuação como antropólogo do autor e a sua experimentação poética, já que os poemas são construídos a partir de fontes da tradição oral de diversos povos africanos.

Em Ondula, savana branca, Ruy Duarte trabalha com textos já divulgados anteriormente em inglês e francês, como é o caso do poema “Ngoni”, recolhido do livro Oral Literature in Africa, de Ruth Finnegan e do poema “Kwanyama”, recolhido do texto “Kwanyama Ambo Folklore”, de E. M. Loeb, procedendo à adaptação desses textos para a língua portuguesa.

Ruy Duarte também incorpora elementos da tradição oral, como cantos, imprecações, provérbios e máximas iniciáticas, recolhidas e traduzidas por outros autores para o português, mas sem que lhes tivessem sido conferido caráter poético. É o caso do poema “Nyaneka”, trabalhado com 30 provérbios Nyaneka, de uma coleção de 166, que foi fornecida ao Ruy Duarte pelo Padre António Joaquim da Silva, em uma Missão da Huíla, como consta nas fontes do autor.

O volume da edição brasileira é recolhido da poesia reunida do autor, Lavra, Poesia reunida 1970-2000, publicada, em 2005, pela Editora Cotovia, em Lisboa. A edição é dividida em três partes: versões, derivações e reconversões. Em versões, Ruy Duarte adapta para a língua portuguesa versões já divulgadas anteriormente em outras línguas, como o inglês e o francês; em derivações, o poeta atribui valor poético a algumas versões em português, cujas traduções existentes apenas permitiam reconhecer, mas não configurar, sua dimensão poética; já em reconversões, o autor trabalha com produções recolhidas e traduzidas por etnógrafos, cujos interesses eram de caráter informativo, em vez de explorar essa dimensão poética que Ruy Duarte desenvolve.

Para a resenha que aqui segue, busco realizar uma breve leitura do poema do povo “Kwanyama”, da seção versões, recolhido e traduzido para o inglês por E. M. Loeb e publicado no livro Kuanyama ambo folklore, em 1951.

Uma das fontes da criação poética de Ruy Duarte de Carvalho

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

No livro Kuanyama Ambo folklore, de Edwin Meyer Loeb, publicado originalmente em 1951, o autor investiga as tradições do povo Kwanyama por meio de histórias, poemas, provérbios e enigma, revelando como a oralidade está presente e atravessa a estrutura do cotidiano desse povo. Loeb apresenta, ainda, um panorama histórico sobre os Kwanyama, apontando tratar-se da maior aldeia Ambo, com – ao menos até a publicação do livro – mais de 60.000 habitantes apenas no Sudoeste da África. Segundo o autor, “Muitos deles anteriormente viviam no Sul de Angola, onde, segundo Hambly, dois entraram em contato direto com os Ovimbundu no Centro de Angola e influenciaram ou foram influenciados por esses povos em seu folclore e costumes.” (Loeb, 1951, p. 289)[1].

A recolha realizada por Ruy Duarte encontra-se na seção Poetry, do texto de Loeb, mais especificamente na categoria Songs of prophecy ou Canções de profecia. As composições orais anunciam acontecimentos futuros sobre a morte de importantes reis, refletindo momentos de transição histórica. Nelas, a palavra profética assume um papel performativo, articulando memórias coletivas e presságios da vida, associados à sucessão dos reis; à chegada dos colonizadores; e às transformações dos modos de vida dos Kwanyama.

O poema “Kwanyama” em versão poética de Ruy Duarte de Carvalho

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Kwanyama

profecia de Sisahama

Um elefante vem, pelo país

morrer nas lavras de Haimbili

nas lavras.

Um elefante assim

que os seus perderam

não pode senão vir

trazer desgraça.

Porquê assim, porquê aqui?

Homens grandes passaram em Ondongwa

e até aqui virão, a estas lavras.

E os padres da igreja

que se afastaram

aqui voltarão de novo.

Vieram, instalaram-se em Ondongwa

cruzaram Onkwambi, Ongandyera

e passam através do Kwanyama.

Grita o rei, pede socorro?

É grito de pobre

só Deus ouvirá.

Talvez, oh talvez

tenha os dias contados

e nem o morcego

possa dar-lhe a mão.

Serão os estranhos a apontar caminhos.

O pêlo da doninha perderá o brilho

e ouvir-se-á um grito de socorro.

Quem assim faz?

Não são os nossos chefes?

O povo kwanyama gritará.

E todos, todos

salvo os da Kwamundya

virão buscar refúgio.

Mas a ombala será incendiada

e o povo só na mata encontrará abrigo.

Haymbili morrerá

e o filho de Hamutendya, irmã do rei, Nangolo

morrerá também.

E os estrangeiros vão se espalhar pela terra.

profecia de Muselenga

Uedyulu!

Eu já não vejo o gado do rei

eu já não vejo o gado dos grandes!

Apenas de Naminda, e de si só

eu vejo o gado

em Osihedi.

Nas terras de Hayndongo

não vejo senão

as casas dos brancos

de um branco tão branco como o da farinha.

Acaba-se o mundo, acaba de todo!

O rei partirá para a ombala da rã

debaixo do chão

e eu próprio me vou

abrigar no túmulo:

ultrajei ao rei.

profecia de Nakulenga

Algo de estranho se agita nas águas

algo de estranho se arrasta na terra.

Era longe, ficou perto, agora é cá.

E o povo já foge.

Talvez até caia

um pau de Omuhama

na estrada a indicar que para o rei

a morte vai chegar

a vida é breve.

Eles vêm de um país muito distante

e trazem para dizer coisas diferentes

que é preciso avaliar com atenção.

Cruzava o país e dos nobres eu via

os ricos currais.

Renovo a viagem

e que vejo agora?

Dos nobres agora não vejo os currais

mas vejo dos brancos

suas construções.

canção de guerra

O covarde ficou

voltou para trás

agiu de acordo com a mãe.

De nós porém

bravos homens

muitos morreram

porque lutaram.

(chora a hiena

chora

a hiena chora)

O nosso camarada jaz no chão

não dormirá conosco.

Ali o deixámos

pernas e pés na berma da estrada

a cabeça tombada

no meio da rama.

Soltados de Nekanda

conquistadores de gado para Hayvinga

filho de Nasitai:

somos rivais em casa

pelas mulheres.

Na guerra, na floresta

somos da mesma mãe.

Leitura do poema “Kwanyama”

O poema “Kwanyama” é dividido em quatro partes: três profecias e uma canção de guerra. As profecias anunciam acontecimentos marcantes para o povo Kwanyama, especialmente por causa da morte dos reis e a chegada dos colonizadores, enquanto a canção de guerra expressa a força e o espírito coletivo do povo, em relação aos guerreiros que não sobreviveram à guerra.

A primeira seção do poema

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

A Primeira profecia, “profecia de Sisahama”, anuncia a morte, em 1851, do rei Haimbili, o maior dos reis Kwanyama e o último a ser circuncidado. Os versos iniciais fazem referência a uma crença do povo Kwanyama acerca do significado de um elefante solitário. Segundo a tradição, os Kuanyama acreditavam que quando um elefante se separava de seu rebanho e vagava sozinho por terras cultivadas, tal acontecimento era interpretado como o presságio da morte iminente do rei. O verso “nas lavras de Haimbili”, alude, portanto, às lavouras pertencentes a Haimbili – aqui, Haimbili com “i”, entendido como um local –. Os versos que fazem referência aos homens grandes, remetem, portanto, aos colonizadores, que passaram pela cidade de Ondongwa, localizada na região de Oshana, no norte da Namíbia, e, depois, foram para as aldeias do povo Onkwambi e Ongandyera, localizadas a oeste dos Kwanyama.

O grito de pobre faz menção a um provérbio Kwanyama: “quando um pobre homem grita por ajuda, só Deus poderá ajudá-lo.” (Loeb, 1951, p. 331)[2]. A imagem do morcego representa outro entendimento dos Kwanyama, que acreditavam que o morcego trazia boa sorte, entretanto, a morte do rei é tão certa que nem o morcego poderia reverter a situação. Na leitura do poema, observa-se o que acontecerá após a morte do rei: os estranhos, entendidos como os missionários, serão os que dirão qual caminho a ser seguido; os chefes, representadas pelo “pêlo da doninha”, perderão as suas honras e suas riquezas; e haverá gritos de socorro dos chefes e do povo, que buscarão refúgio.

Ao final da primeira parte do poema, tem-se os versos: “Mas a ombala será incendiada / e o povo só na mata encontrará abrigo. / Haymbili morrerá”. Em uma conversa paralela com a pesquisadora Júlia Goulart Silva, sobre o fazer poético de Ruy Duarte, ela ressaltou um fato interessante acerca do uso do termo “ombala”: Ruy Duarte respeita o aspecto etnográfico.

Pode-se perceber o cuidado de Ruy Duarte ao utilizar “ombala”, ao invés de “o palácio”. A fonte de Ruy Duarte, Loeb, traduz o termo ombala para “the palace”, mas Ruy Duarte respeita o aspecto etnográfico dos Kwanyama e deixa a versão original. Vale mencionar, também, nesse processo de transcriação, como o poeta reformula alguns acontecimentos. Na fonte de Ruy Duarte, a Ombala é incendiada pelos invasores que fazem abrigo na mata, enquanto em sua versão poética, o povo Kwanyama que busca abrigo na mata.

Culminando para o fim da primeira parte do poema, na leitura dos versos seguintes, de fato, Haymbili, com “y”, entendido como o rei, e o seu sucessor, Nangolo, filho de sua irmã, morrerão, enquanto os invasores conquistarão as terras do rei e se espalharão.

A segunda seção do poema

Na segunda seção do poema, a “profecia de Muselenga”, faz-se referência ao Rei Uedyulu, que governou os Kwanyama entre 1884 e 1904. Segundo Loeb (1951, p. 317)[3], o rei “era um grande amigo dos missionários, embora ele próprio nunca tenha se convertido.”, mas o pesquisador acrescenta, ainda, que “O profeta Muselenga se opôs à amizade de Uejulu com brancos”.

Na leitura do poema, o eu poético, possivelmente o profeta Muselenga, anuncia a decadência do reino de Uedyulu, simbolizada pela ausência do gado e pelo domínio dos missionários. Observa-se, então, a ausência do gado tanto para o rei quanto para os brancos, restando apenas o gado pertencente a Naminda, uma mulher nobre, no distrito de Osihedi.

Durante a leitura, é notório perceber quais mudanças acontecerão, já que a visão das casas brancas marca o domínio e o impacto da colonização sobre a organização social do Kwanyama, uma vez que eles têm sua própria estrutura denominada kraal. O branco “como o da farinha” reforça o contraste entre os Kwanyama e os colonizadores. Na imagem da partida do rei à ombala da rã[4], debaixo da terra, sugere a queda do poder real e a morte do rei. Ciente da gravidade do que está por vir, reconhecendo o fim do reinado do rei, o eu lírico toma consciência do peso de sua palavra profética.

A terceira seção do poema

 A terceira seção do poema, a “profecia de Nakulenga”, alude ao rei Musipandeka, que governou entre 1861 e 1881, quando os brancos entraram pela primeira vez nas terras do povo Kwanyama. Os versos iniciais marcam a chegada dos colonizadores e os possíveis acontecimentos, após a invasão do colonizador. A queda do pau da árvore Omuhama simboliza uma sabedoria dos Kwanyama que consideram um mau presságio, se a árvore Omuhama cair, pois, indica a morte iminente do rei. É possível perceber a decadência do império, a partir dessa visão dos nobres perdendo os seus currais à medida que os brancos ganham mais espaços e fazem construções.

A quarta e última seção do poema

A quarta e última seção do poema, a “canção de guerra”, vai exaltar os guerreiros que lutaram contra o invasor. Segundo Loeb, “Canções de guerra, na verdade, são canções de louvor, cantadas quando as tropas retornam em segurança para casa após uma vitória.” (Loeb, 1951, p. 318)[5]. Nessa seção, é possível perceber um tom de exaltação e reconhecimento coletivo dirigido aos guerreiros que foram para a guerra, mesmo diante da morte, em contraste com covarde que voltou para trás. A repetição do verso “chora a hiena”[6], pode representar a lamentação e a perda de um guerreiro, reforçando o sentido trágico da guerra. Caminhando para o final, há um movimento de reconciliação e pertencimento coletivo. O poema encerra-se com uma mensagem de união e fraternidade entre os guerreiros, que, apesar das rivalidades cotidianas, posta nos versos “somos rivais em casa / pelas mulheres”, reconhecem-se como irmãos, na guerra.

A recepção crítica da obra

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Entre críticos brasileiros que analisam ou que já teceram algum comentário crítico sobre Ondula, savana branca, destacam-se Prisca Agustoni, Sandro Ornellas e Maria Nazareth Soares Fonseca.

Ornellas, em seu texto “Ruy Duarte de Carvalho em transumância pelos discursos”, chama esse trabalho poético de Ruy Duarte de etnopoesia, enquanto Fonseca, em “Percursos da memória em textos das literaturas africanas de língua portuguesa”, vai caracterizar o fazer poético do angolano como etnografia. Esta última autora observa: “[…] vários poemas do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho são produzidos a partir de recolha, ‘nos domínios da etnografia […].’” (Fonseca, 2005, p.48).

Para Fonseca, essa prática resulta em um processo de transcodificação, transformando formas da tradição oral em poemas escritos, o que é recorrente na obra de Carvalho, uma vez que o processo de “transcodificação” que se vê em  Ondula Savana branca, também se nota, segundo a autora, em  Hábito da terra, de 1988, e em Vou lá visitar pastores (1999).

Agustoni, por sua vez, em seu texto “Uma visita ao ateliê do poeta”, retoma essa relação entre escrita e oralidade, nas palavras da pesquisadora, entre a fidelidade à fonte e a liberdade poética, para chamar de hibridação, ressaltando que Carvalho desestabiliza a hierarquia tradicional entre o texto escrito e o de matriz oral. A crítica diz

“Ruy Duarte está ciente da hierarquia existente no ocidente do texto escrito sobre o texto de matriz oral. Diante desse elemento, sua obra e seu método compositivo desestabilizam essa hierarquia, ou pelo menos, a questionam, ao fazer desse livro um campo de hibridação e de contaminação explícito (e explicitado) entre as fontes. (Agustoni, 2024, p. 192)

É a partir dessas concepções, posta por Agustoni, que podemos perceber que Ondula, savana branca não é apenas um livro de poemas, mesmo o autor colocando na nota do livro que assumiria a responsabilidade de poeta, mas um meio em que a tradição oral e a invenção literária são articuladas de maneira a produzir uma poesia híbrida, como posta por Fonseca anteriormente.

A crítica literária brasileira tem enfatizado, sobretudo, conceitos centrais para compreender o fenômeno poético da obra de Ruy Duarte de Carvalho, quais sejam: etnopoesia, etnografia, hibridismo/hibridação, poética impura e transcodificação, sendo esse último, segundo Fonseca, um procedimento recorrente na trajetória do autor, presente não apenas em Ondula, savana branca, mas também em outros livros

Considerações Finais

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Caminhando para o fim desta resenha e no encerramento da leitura do livro, é possível perceber a riqueza e a complexidade que envolvem a leitura de Ondula, savana branca e o diálogo estabelecido com tradições orais africanas. Com a leitura da obra, foi possível perceber como a poesia do angolano não apenas traduz elementos da tradição oral, mas os reinventa de maneira criativa e poética, reinscrevendo as memórias culturais dos povos que constituem as fontes do poeta.

Finalizo a leitura de Ondula, savana branca com algumas questões: Tendo em vista essa dimensão poética de Ruy Duarte com a tradição oral de diversos povos africanos e sua atuação como cineasta, antropólogo, artista plástico; autor de múltiplas obras que atravessam as várias formas da linguagem, registros que vão da etnografia ao cinema; e o fato de ter sido um dos grandes nomes da literatura angolana; seria possível imaginar o próprio papel de Ruy Duarte como um griot, que utiliza de sua poesia para preservar ensinamentos das tradições orais para outras culturas?

No conhecido texto “A tradição viva”, Hampaté Bâ menciona três categorias para os griots: há os griots músicos, os griots embaixadores e cortesãos e os griots genealogistas, historiadores ou poetas. Expandindo essas categorias, seria realmente possível imaginar uma nova classificação, para incluir o “griot moderno” ou o “griot da modernidade”, transitando entre a oralidade e a escrita? Seria ele aquele que traduz, reinterpreta, reinventa e transmite as tradições orais africanas por meio da poesia, e que não precisaria passar por um processo de iniciação?

Referências

AGUSTONI, Prisca. Posfácio. In: CARVALHO, Ruy Duarte. Ondula, savana branca. São Paulo: Círculo de Poemas, 2022. p. 201-213

AGUSTONI, Prisca. Uma visita ao ateliê do poeta. In. CHAVES, R.; PIÇARRA M. C. (org.). Ruy Guerra e Ruy Duarte de Carvalho — entre escritas e imaginários. ICNOVA: Lisboa, 2024. Cap. X, p. 188-198.

BÂ, Amadou Hampaté, A Tradição Viva In. História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África / editado por Joseph Ki -Zerbo. – 2.ed. rev. – Brasília: UNESCO, 2010. Capítulo 8, p. 167

CARVALHO, Ruy Duarte de. Ondula, savana branca. São Paulo: Círculo de Poemas, 2022. p. 216.

FLORES, Guguilherme G. Quando um poeta vira encruzilhada. Recife:Continente, 2022. Disponível em: https://revistacontinente.com.br/edicoes/263/quando-um-poeta-vira-encruzilhada. Acesso em: 24 ago. 2025

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Percursos da memória em textos das literaturas africanas de língua portuguesa. Gragoatá, [S. l.], v. 10, n. 19, 2005.

FONSECA, Maria Nazareth Soares. Percursos da memória em textos das literaturas africanas de língua portuguesa. Gragoatá, [S. l.], v. 10, n. 19, 2005.

LOEB, E. M. Kuanyama Ambo Folklore in: Anthropological Records, v. 13, nº 4, pp. 289-336; Berkeley e Los Angeles, 1951.

ORNELLAS, Sandro. “Ruy Duarte de Carvalho em transumância pelos discursos”. Revista Eutomia. Recife: Ano II – n. 1, p. 191-211 jul./2009.

Terceira edição dos 11 clássicos. PressReader. Luanda; 2016. Disponível em: https://www.pressreader.com/angola/jornal-cultura/20160104/281595239510967. Acesso em: 1 set. 2025.


[1] As traduções são livres. No inglês, lê-se “Many of them formerly lived in South Angola where, according to Hambly, 2 they came into direct contact with the Ovimbundu in Central Angola and either influenced or were influenced by these people in their folklore and customs.”

[2] “When a poor man cries for help, only God will aid him.”

[3] “He was a great friend of the missionaries, although he himself was never converted. […] The prophet Muselenga opposed Uejulu’s friendship for the whites”

[4] Possivelmente deve haver algum sentido ou conhecimento para os Kwanyama sobre a rã, entretanto, Loeb não deixou nenhuma explicação.

[5] “War songs actually are songs of praise, sung when the troops return safely home from a Victory.”

[6] A imagem da hiena também pode representar algum entendimento para o povo Kwanyama, mas também não é explicado por Loeb.

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