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“A melhor literatura do mundo é política”: entrevista com o poeta angolano José Luís Mendonça

“Escrever de forma simplista para o povo não deu resultado nenhum, porque o povo não leu nenhum poema.
Este tipo de escrita, de fórmula pseudoliterária, ainda hoje está aqui.”

Conheci a poesia do angolano José Luís Mendonça ao ler a antologia O Brasil na poesia africana de língua portuguesa (2019), organizada pelas Professoras Dras. Anita M. R. Moraes e Vima Lia R. Martin, e publicada pela Editora Kapulana. Quando estive em Angola, em dezembro de 2025, tive a grande honra de conhecê-lo pessoalmente.

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Em 2025, ao final da minha iniciação científica, decidi estudar a recepção de Ruy Duarte de Carvalho, no eixo Brasil-Portugal, para apresentação de uma comunicação no SILAS – II Seminário Internacional de Literaturas dos Países Africanos de Língua Portuguesa, na PUC – Minas, e deparei-me, após algumas pesquisas, com uma entrevista do José Luís Mendonça, concedida à revista Poesia Sempre, em 2006, na qual o autor alegava não haver uma crítica literária em Angola e reforçava dizendo que o próprio poeta Ruy Duarte afirmava o mesmo. Tal afirmação despertou-me um “insight”, tanto é que a entrevista foi utilizada na minha comunicação e, também, como base para questionar, no meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a existência (ou ausência) de uma crítica literária endógena em Angola.

Registro feito no dia da entrevista – Dalyson Oliveira

Quando decidi fazer entrevistas para o meu TCC, o nome Mendonça era certo que o convite seria feito e, hoje, eu não poderia estar mais feliz em dizer que o entrevistado da vez é ele. A entrevista foi conduzida por mim e pelo meu orientador, o Prof. Dr. Bernardo Nascimento de Amorim. O José Luís é o último entrevistado e estou muito feliz em tornar público o que conversamos sobre a crítica literária em Angola. Realizamos a entrevista na manhã do dia 1 de junho, numa segunda-feira, pelo Google Meet.

José Luís Mendonça: poeta, romancista e professor universitário
Foto do acervo pessoal – Eu sendo leitor

Grande nome da literatura angolana, José Luís Mendonça nasceu em Golungo Alto, Kwanza Norte, Angola, em 24 de novembro de 1955. É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, onde atua como docente universitário de Língua Portuguesa e Direito, na Faculdade de Ciências Sociais da mesma instituição. É escritor e jornalista, tendo sido Diretor do Jornal Cultura. Sua estreia na literatura, com o livro de poesia Chuva novembrina, marca um grande momento para a sua carreira, uma vez que a obra recebeu o prêmio de poesia Sagrada Esperança, em 1981. O autor tem obras publicadas por várias editoras nacionais, em Angola; em Portugal e no Brasil.

DO: Em 2006, fazendo a crítica da crítica, o senhor afirmou, em entrevista à revista Poesia Sempre, o seguinte: “Os críticos brasileiros aplaudem tudo o que se produz aqui [no continente africano] e lhes chega às mãos. Ora, o próprio poeta, o escritor em geral, também precisa que se lhe diga em que aspectos pode melhorar a sua obra, não se pode criticar sem criticar” (Mendonça, 2006, p. 20). Ainda na mesma entrevista, o senhor disse que, no contexto de Angola, a questão da crítica literária é mais complexa. O senhor diz: “Angola é um país onde ainda não existe uma crítica literária audaz e regular” (Mendonça, 2006, p. 20). E continua: “O poeta Ruy Duarte diz mesmo que não há crítica literária em Angola e isso não permite separar o trigo do joio”. Nesse sentido, gostaria de saber: na sua perspectiva, a crítica ajuda a “separar o trigo do joio”, como se afirmou? Nos últimos 20 anos, a crítica literária se desenvolveu?

“a melhor literatura do mundo é política”

 JLM: Sim. Continuo a manter a mesma posição, porque a situação está igual à, praticamente, do início da independência. O que aconteceu em Angola e acontece? Angola obteve sua independência sob o primado da partidarização. Uma coisa é política — a melhor literatura do mundo é política — e outra coisa é a partidarização das coisas. Há uma partidarização. Os mais conhecidos escritores e artistas vieram com o MPLA – eram e são do MPLA, a maior parte deles –, e a União dos Escritores nasceu e até está crescendo sob as rédeas do partido.

Há gente já mais velha lá dentro (poetas, alguns já faleceram, ficaram poucos), mas dois ou três, a meia dúzia que ficou, estive a conversar com um deles, que nem vale a pena dizer o nome, que acredita, piamente, que a obra de Agostinho Neto, Sagrada Esperança, faz parte do MPLA. O Agostinho Neto poeta não é diferente do Agostinho Neto presidente, então, é a poesia do MPLA. Eu tive uma discussão com ele sobre esse aspecto e não consegui nada convencê-lo do contrário.

E, portanto, como é que a União dos Escritores atua? A União dos Escritores Angolanos atua como se fosse um comitê de ação do partido. Eles têm as garras impostas ali na questão ideológica e a questão de defesa das ideias do partido. E, então, a sociedade no geral é a crítica. A sociedade angolana é a crítica deste pressuposto partidário, que não é político, é partidário. Então, tem muitos jovens, meus amigos, que não eram do partido e já entraram, então, ele não pode fazer uma crítica a uma obra. Aqui nunca ocorreu uma crítica a poesia de Agostinho Neto, por exemplo. É difícil. Mesmo autores que estão cá dentro, que são mais velhos, eles têm medo de fazer crítica, então, a crítica é toda pacífica, toda alinhada, etc.

Temos esta situação, por isso que eu digo que não há crítica literária. Por quê? Há uma quantidade de poesia bem grande da “Geração da Guerrilha” que foi lançada depois da independência. O Luandino Vieira era o Secretário-geral e foi publicando essas obras… 70% ou 80% da poesia, por exemplo – estou a falar de poesia –, não é sequer literatura, não é literatura; é um panfleto escrito na vertical. Há um poema que diz assim: “Viver é lutar, lutar é viver, viver é lutar”, do Fonseca, que aquilo não é poesia nem literatura. Há coisas assim que saíram na Antologia de Poesia Negra, do Mário Pinto de Andrade.

O Mário Pinto de Andrade publicou essa antologia, porque era uma época de luta de guerrilha e era preciso mostrar ao mundo qual era o sentimento da angolanidade, então, fez-se essa antologia que, se você olhar para ela hoje, 80% não é literatura, não é poesia sequer. Isso entrou para cá, vingou e, hoje em dia, ainda há pessoas que produzem poesia nessa fórmula muito simplista que eu chamo “cantalutismo”. É um panfleto político.

E há uma tese, uma falácia, que diz que esta poesia foi a primeira arma de arremesso contra o colonialismo. Pode ter sido, mas não aqui dentro. Foi lá para fora. Na Itália saiu uma edição, em Portugal, para as pessoas saberem que Angola estava a pedir a independência, mas aqui dentro 80% da população era analfabeta. Os livros não circulavam aqui para o povo de base, o povo negro que vive nos musseques, que era o que lutou mesmo. Então, havia uma pequena intelectualidade. Deviam ser 40 ou 60 pessoas que leram esses poemas. Portanto, foi uma arma de arremesso, mas para o exterior; para dentro, não foi. Escrever de forma simplista para o povo não deu resultado nenhum, porque o povo não leu nenhum poema. Este tipo de escrita, de fórmula pseudoliterária, ainda hoje está aqui.

Se alguém pegar na poesia destes poetas da “Geração da Guerrilha”, nos quais se incluem Agostinho Neto, António Jacinto e muitos outros, você vai arranjar aquilo que chamamos aqui em Angola de uma “maka”, quer dizer, um problema gravíssimo. Então, ninguém faz crítica; ninguém diz que isto aqui não é poesia.

Os jovens que querem escrever poesia têm que ter cuidado, têm que ler estes autores, estes e aqueles. E também, a crítica que se faz aqui são mais estudos literários, estas revistas que você falou. Eu chamo crítica, por exemplo, aquelas resenhas que saem no fim das revistas a anunciar livros ou mesmo uma resenha mais consistente, as coisas que saem nos jornais, que saem na rádio, na televisão. Isto não existe. Nós só temos um jornal diário, num país com 35 milhões de habitantes. Temos 2 jornais privados e a televisão está toda estatizada. Temos algumas rádios privadas, mas não há gente suficiente com capacidade para analisar toda a obra que sai. Eu chamo crítica literária: sai um romance hoje, de um autor; no fim de semana, devia haver uma resenha sobre a obra. E isto é que não há em Angola. Este é o problema.

Quanto ao Brasil, o Brasil tem umas autoras, ensaístas, que vieram cá, em Angola, durante vários anos, estiveram aqui a estudar a literatura e meteram tudo, eu chamo de “meter tudo no mesmo saco de gatos”. Misturam um poeta bom com um poeta medíocre, porque são da mesma geração. Ele publicou um livro, mas esse livro não tem consistência para ser chamado de literatura. Muitos dos estudos brasileiros e portugueses, também – autores portugueses que dão aulas nas universidades –, misturam poetas de grande renome, como o Ruy Duarte de Carvalho, ao pé de outros poetas que não têm qualidade. Essa mistura é que eu condeno. É preciso separar. É preciso separar as águas. Portanto, este é o meu ponto de vista sobre a situação da crítica literária em Angola. 

As universidades que dão cursos de Humanidades e cursos de Letras pecam por um erro de pedagogia e didática, também, que é a questão de ensinar literatura só na teoria. Eu fui fazer um inquérito na Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto, há uns sete ou oito anos atrás, e vi – entrevistei os alunos, estudantes do ensino superior – que nunca tinham lido, praticamente, nenhum livro dos autores que estavam a estudar.

Estudavam o Luandino Vieira, Uanhenga Xitu, Agostinho Neto, mas estudavam a teoria, o que diziam os teóricos, mas não liam os livros desses autores. Achei aquilo uma aberração tremenda. Então, temos estas lacunas aqui no país, coisas difíceis de resolver, porque agora, a situação que vemos aqui no país é falta de livrarias, escassez grande de bibliotecas. A Biblioteca Nacional de Angola não tem um acervo bibliográfico dos clássicos: Luandino Vieira, Agostinho Neto, Uanhenga Xitu, Ruy Duarte de Carvalho… Não tem, está vazia. É a maior biblioteca do país. Não há bibliotecas comunais e municipais nos bairros e as escolas não têm bibliotecas e não há livros à venda, Dalyson.

O problema que temos aqui no país é que estamos a atravessar um período de deserto livreiro; deserto de literatura. Você, para conseguir um livro, o meu livro, por exemplo, O reino das casuarinas, você tem que bater a cabeça, saber quem é a editora e ir lá na editora bucar, porque o livro não está à venda. Outra questão: o livro, se estiver à venda, está quase um terço do salário mínimo. O salário mínimo são 100 mil kwanzas, o livro custa 20, 30, 40 mil kwanzas. É difícil comprar um livro aqui. Então, temos esta problemática toda que impede que haja uma boa safra da crítica literária e, também, da própria literatura que se vai produzindo agora. Contam-se pelos dedos das mãos os autores que têm uma certa qualidade.

DO: Nós fizemos outra entrevista com o Helder Simbad, e ele mencionou o Litteragris, que ele coordena, e que a crítica literária foi começar a se desenvolver a partir de 2015. Por isso, havia essas questões que o senhor e o Ruy Duarte tinham pontuado sobre essa falta da crítica literária em Angola. Como o senhor observa a fundação do Litteragris e o que eles vêm promovendo com essas formações de críticos?

“mas pôr o título embaixo ou em cima, se o poema não tem aquele trabalho oficial, que transforma a Palavra num objeto de manuseamento intelectual, não chega a ser uma poesia de grande cultura estilístico.”

JLM: Depois da paz, começaram a surgir, além da União dos Escritores, tertúlias literárias que são associações de jovens: o Movimento Lev’Arte; depois, foi o Litteragris, que é coordenado pelo Helder Simbad. O Helder Simbad optou por basear-se na crítica, em vez de se basear primeiro na leitura. [Ele] Começou a estudar a crítica literária. E eu já disse a ele uma vez que eles [..], em vez de nascer pela cabeça, eles nasceram com os pés para a frente. Mesmo o Movimento Lev’arte, dos jovens, também lhes disse a mesma coisa – eles não estão na crítica, estão mais na literatura -, mas nasceram ao contrário, porque começaram a escrever sem ler.

O grupo do Helder Simbad tem este defeito muito grande, também. Começaram a estudar os grandes teóricos da crítica literária, mas leram pouco. É por isso que no grupo do Helder Simbad não nasceu nenhum grande autor até hoje. Não nasceu até agora. Este é o grande problema que temos aqui. O Helder tem muita boa vontade, mas, no grupo deles, no grupo do Helder, por exemplo, eu encontro quatro, pelo menos – não sei se são dez ou quinze – jovens que já estão no partido e, quando você entra para o partido, você fica limitado pelo partidarismo.

O homem começa a aparecer nas redes sociais – um dos membros lá do movimento do Helder Simbad – a falar mais do partido do que de literatura. Vocês podem ser do partido, todo homem é livre, mas não podem misturar. Estamos num evento literário a fazer uma palestra e vem um e diz: “O meu partido”, “Eu sou do partido”… Há aqui uma confusão muito grande com estes jovens, porque realmente para sobreviver em Angola o melhor é estar no partido, mesmo nós intelectuais.

Nós chamamos “baju”, bajulador, aquele que está sempre a bajular um sistema que não está a funcionar muito bem. E então, o Helder Simbad fez um trabalho militório, porque fundou uma revista, que é a Mayombe; publicou alguns livros; e tentou fazer uma nova fórmula para a poesia, com o título embaixo, mas pôr o título embaixo ou em cima, se o poema não tem aquele trabalho oficial, que transforma a Palavra num objeto de manuseamento intelectual, não chega a ser uma poesia de grande cultura estilístico.

Então, ele tem razão nalguns aspectos. Fundou aqui um movimento muito dinâmico, tem muita gente lá, mas é como disse, ele tem certas limitações, porque há autores que ele não pode criticar; há autores que facilitaram a vida na União dos Escritores. Ele agora trabalha na União dos Escritores, então, você não pode criticar um membro da União dos Escritores, não pode fazer uma crítica a um livro, porque perde aquele espaço de interação. Ele não é culpado dessa situação, mas que ele tem um trabalho militório, isso tem, tem feito muita coisa lá. Tem trabalhado muito com essas limitações todas, com essas lacunas e continuo a dizer: o que falta nesse grupo de jovens todos – e eu tenho observado alguns – é que falta-lhes o sumo literário, que é a leitura, não só de autores angolanos, mas de autores de outros países, autores universais.

BA: Eu achava que essa coisa do partidarismo entre escritores, a necessidade de fazer parte do MPLA, tinha, a partir dos anos 1980, que seria a sua geração, deixado de ser tão forte, que fosse mais possível fugir do partidarismo e, inclusive, do “cantalutismo”, que foi muito forte até os anos 1980, me parece. Quer dizer, essa era a minha impressão: o “cantalutismo” foi muito forte até os anos 1980 e, a partir da sua geração, que é a mesma geração da Paula Tavares, do João Melo, do Lopito Feijó, já havia outras alternativas, e, pelo que você está dizendo, a coisa ainda continua muito rígida em termos de controle do partido.

Eles não se ralaram muito por eu dizer que a obra não merecia prêmio; eles ralaram-se porque eu disse, num artigo no jornal, que aquele poema, que é o primeiro, não houve nenhum milagre raro em Angola”

JLM: Sim, você tem razão nesse aspecto. Houve uma mudança na forma e no estilo de escrever, na temática. Nós somos mais livres agora. O que eu estou a dizer é que, por exemplo, agora, com a nova governação deste último governo — já lá vamos quase há 8 ou 9 anos —, a pressão sobre o pensamento livre é maior, aumentou. Quer dizer, nós voltamos aos anos de [19]75 e o outro governo, o segundo presidente, foi amainando, mas, de um momento para o outro, isto aqui tornou-se um inferno e, então, as pessoas já não estão a fazer “cantalutismo”.

Por exemplo, um autor que publicou um livro que foi prêmio do DST/Camões, que eu contestei porque não merecia [o] prêmio, que ainda abraçou o “cantalutismo”, um escritor já mais velho — ele é médico. O livro chama-se 111 Sonetos Novembrinos que, também, para comprar, você tem que telefonar para o autor, porque, às vezes, os autores lançam o livro e você tem que telefonar para ele, pagar e ir buscar o livro.

Este livro não merecia prêmio, porque são 111 sonetos. Ele segue a linha formal, mas a literariedade por dentro dos poemas é muito fraca e ele, por exemplo, diz que a independência foi um milagre raro – utiliza a palavra “milagre raro” – e que o país está a caminhar rumo à democracia. E eu disse: “Não, não pode, a não ser que não sejamos intelectuais, mas aqui não há democracia nenhuma até agora. Não estamos a caminhar para a democracia, estamos a caminhar para uma ditadura”. E, além disso, os 75 foi guerra. A nossa independência foi uma guerra atroz, muitos mortos na rua, então, não houve nenhum milagre raro.

Olha, eu arranjei uma maka, porque, praticamente, eu já não ponho os pés na União – eu vou ficar um ano sem pôr lá os pés, porque impediram-me de fazer uma maka. Há uma tertúlia, às quartas-feiras, na União dos Escritores, e eu, como sou membro, quis fazer para falar desse prêmio, eles sabotaram. Não sabemos quem é. Há uma pessoa lá em cima, muito mais velha, que é do partido, que ninguém diz o nome, que disse que eu não podia fazer a tertúlia.

Eu disse: “Vocês estão a violar os meus direitos à liberdade de expressão e à liberdade de informação, porque não me informaram por que cancelaram a minha maka, à quarta-feira, e outros direitos conexos”. Então, é só para vocês verem como é que estamos. Só depois que eu disse: “Eles não se ralaram muito por eu dizer que a obra não merecia prêmio; eles ralaram-se, porque eu disse, num artigo no jornal, que aquele poema, que é o primeiro, não houve nenhum milagre raro em Angola”. Está a ver o problema da política partidária e que, em Angola, não há democracia?! Só depois que eu realizei: “Afinal, foi por isso”.

Mas, no geral, o “cantalutismo” dos anos passados já não há. A coisa está sofisticada, mas, em outro aspecto. Por exemplo, há um combate acérrimo contra quem é contra o regime. Essa é a questão. Então, ninguém combate o que está mal; ou você fica calado, faz a sua poesia e pronto. Há bons poetas aqui e há bons escritores jovens mesmo que vão fazendo as coisas. Mas há escritores jovens que criticam, com grande acutilância, o regime e a situação do povo. Um deles ganhou o Prêmio Sagrada Esperança, em 2021, se não estou em erro. Um jovem. É uma peça de teatro: O país dramaticamente estável[1]. E essa peça de teatro praticamente ninguém conhece. Não se divulga a peça de teatro. O homem é um ilustre desconhecido.

Há coisas assim no país. Então, já não há o “cantalutismo”, o que há é dificuldade de liberdade de expressão. E eu tenho dito que isto impede o avanço da ciência em Angola. Esta situação que temos desde 1975 impede o avanço da ciência, porque as pessoas não podem exprimir projetos, ideias sobre educação, sobre medicina, sobre outros aspectos, porque, quando você está a propor uma organização do setor da saúde, você está a criticar o regime – esse é que é o problema.

Tenho amigos que são médicos e que dizem que devemos ter mais postos médicos nos bairros, em vez de grandes hospitais. Quem está a fazer os grandes hospitais, quem está a inaugurar, é o presidente João Lourenço. Se você diz que é mais útil para o povo ter postos médicos do que grandes hospitais, que custam milhões de euros, você está a criticar o regime. Está a ver o problema?

DO: Periódicos como Mayombe; Lavra & Oficina, da União dos Escritores Angolanos; e a seção “Cultura”, do Jornal de Angola, configuram um espaço para a crítica de obras literárias, em anos recentes. Como o senhor avalia a atuação desses veículos, no contexto do desenvolvimento do sistema literário angolano?

“As pessoas leem pouco em Angola. O nível de leitura é muito fraco. Mesmo as revistas eletrônicas, as pessoas também já não leem. Está muito difícil ler. Nem todo mundo tem um computador. Ler no telefone não é fácil.”

JLM: Eles têm o mérito de surgirem num momento em que há escassez dessas publicações literárias. Há muita escassez. A Lavra & Oficina já fechou há muito tempo e eles estão a tentar reabrir agora. Só que essas três publicações que você referiu são só online, é tudo online. Fica restrito a um círculo de pessoas. Nós somos 21 províncias, agora. Há províncias do interior que não têm uma livraria e a revista também não chega lá online, porque, se não é impresso, é difícil as pessoas lerem.

O Jornal Cultura já não é impresso também. Eu próprio, para ler o Jornal Cultura, tenho que pedir. Fui diretor do Jornal Cultura, já saí de lá em 2020, agora, tenho que estar a insistir para mandarem aquilo via WhatsApp, porque ele não manda para ninguém. Tem que estar: “Olha, manda-me o jornal”. Então, fica difícil. As coisas deviam chegar às pessoas, não andarmos atrás delas. Devia haver uma oferta dessas publicações para tudo quanto é universidades. Os intelectuais da União dos Escritores deviam dizer: “O site está aqui”, “Acessem esse site para ler o que temos aqui”, “Este mês vai sair isto e aquilo”. Então, é muito difícil. As pessoas leem pouco em Angola. O nível de leitura é muito fraco. Mesmo as revistas eletrônicas, as pessoas também já não leem. Está muito difícil ler. Nem todo mundo tem um computador. Ler no telefone não é fácil.

Então, são essas dificuldades todas que fazem com que trabalhos como o [do] Helder Simbad, por exemplo, fiquem e depois percam o seu valor, percam a sua… como é que eu ia dizer?… pertinência, porque praticamente não são acessíveis ao público. É uma área para elites, talvez. Este é que é o grande problema. Não chega àquele jovem que está aí no ensino médio, no ensino superior e o que está na Província de Uíge, Malanje, nunca vê as revistas, nem online.

DO: As universidades costumam assumir um papel fundamental na consolidação de uma crítica literária “audaz e regular”. Como as universidades angolanas atuam nesse espaço da crítica da Literatura Angolana?

Bom, há alguns alunos, aqueles mais dotados, por orientação dos professores, uma delas é a Domingas Monte, minha amiga; o Abreu Paxe e outros que vão fazendo algumas coisas, resenhas de livros e estudos sobre livros para as suas teses, as suas monografias finais. Até são isso que eles fazem. Fazem uma monografia sobre um livro do Luandino Vieira, um livro de outro autor, ficam-se por aí. Agora, crítica sistemática regular não há. Não há porque os professores… Não é que os professores não orientem para isso. Eu sou professor universitário e os meus alunos têm muitas dificuldades de redação, porque vêm com a mente formatada com a desleitura.

Eles vêm desde o ensino de base, o ensino secundário, o ensino médio sem lerem, por exemplo, cinco clássicos da literatura angolana, ainda que vão para a medicina, que vão para outra área qualquer. Nós, no tempo colonial, no ensino secundário e no médio, tínhamos que ler alguns livros: três por ano no ensino secundário; depois, cinco livros por ano ou seis no ensino médio pré-universitário. Tínhamos que ler os clássicos de Portugal.

É incrível que eu tenha 340 ou 350 alunos, três turmas, e, no teste que eu fiz, desses 300 alunos, nunca nenhum deles leu um autor angolano. Nunca pegou num livro e eu fico aterrorizado. Nem sequer um conto. Então, o que é que eu faço? Eu dou a Língua Portuguesa. Vou introduzindo os alunos nos tipos e gêneros textuais. Dou um poema; dou um conto tradicional; dou uma história curtinha; até história do Brasil, A Promessa, de um autor brasileiro, uma coisa bonita. Vou buscando um ensaio pequenino, também, para eles conhecerem os diversos tipos textuais e para se prepararem para fazer a monografia.

Mas primeiro nós começamos pela leitura do Jornal de Angola, que é o jornal mais barato, custa 100 kwanzas ou 200. No início do ano, nós vamos lendo o jornal. Mas é incrível, Dalyson, eles ficam todo o ano com o jornal, não abrem o raio do jornal. Eu depois digo: “Então vamos fazer o seguinte: vocês vão escolher um artigo do jornal e vamos fazer um resumo”. É difícil fazerem o tal resumo, porque não leem. As turmas são carteiras de três alunos. Eles copiam do aluno do lado, fazem subterfúgios, faltam muito às aulas. Eu estou espantado, estou aterrorizado. Nós estamos aqui, não estamos a ensinar nada. Nós estamos a fingir que ensinamos e os alunos a fingir que aprendem.

Então, são estes alunos que vão para os cursos de Letras também e têm muitas dificuldades em interpretar um texto. A situação é muito grave em Angola. Nós tínhamos que fechar o ensino, porque o ensino de base está num estado de calamidade pública. É como se tivesse vindo uma tempestade grande e destruísse a casa, e tem que fechar todo o bairro, a zona, reconstruir as casas. Então, tínhamos que fechar o ensino durante um ano, estudar bem a situação, arranjar manuais. E você sabe por quê, Dalyson? No ensino de base são nove milhões de alunos e há quatro milhões e quinhentos mil fora do ensino, que não têm escola. Desses nove milhões, são seis disciplinas durante seis anos. Isso dá cinquenta e quatro milhões de manuais: de Língua Portuguesa, de Geografia, de Ciências Naturais, de Matemática. Só 20% ou 30% dos alunos é que têm manuais.

Deve haver cinco milhões de manuais ou seis milhões, de cinquenta e quatro milhões. Então, o aluno vai para a escola, volta para casa e não tem um livro para estudar. Ele vai com o caderno esferográfica, o professor dá matéria, ele vai para casa, faz alguns deveres e tal, mas ele não tem a noção do que é um livro com lombada. Ele não tem a noção de folhear o livro. E isto é a parte mais grave que temos agora, porque cinquenta e quatro milhões de manuais custam trezentos mil milhões de kwanzas, o que dá talvez duzentos e cinquenta milhões de dólares, ou mais até, talvez quinhentos milhões de dólares. O Estado não põe esse dinheiro no ensino, não põe. Deve ter o dinheiro, mas não investe nisso.

Então, fez-se um plano nacional do livro e de promoção da leitura. Eu até que fiz o esboço desse plano, depois eles modificaram muita coisa. E esse plano foi pensado em 2011, num decreto presidencial do antigo presidente; em 2018, fez-se outro decreto presidencial, a criar uma comissão; em 2024, fez-se o plano já acabado, outro despacho presidencial; e, hoje, estamos em 2026 e não está aplicado nada. Não se aplica o tal plano. Só ficamos no plano. E as pessoas não sabem que é a partir do livro, no ensino primário, que o aluno aprende o método didático autodidata e aprende a cultura geral. Ele não tem cultura geral. Ele chega à universidade…

Estava a dar um texto de Pepetela, que era As aventuras de Ngunga, e tem lá o nome de dois rios. E eu pergunto aos alunos: “Onde é que se passa esta cena de Pepetela?”, porque lá não diz a província. Não sabem. Muitos dizem que é Cabinda. Aquilo é Moxico, faz fronteira com a Zâmbia. Até porque o próprio livro diz que o Ngunga passava de Angola para a Zâmbia. Mesmo assim, os alunos não conhecem os rios de Angola, não conhecem geografia. Há personalidades históricas de grande porte que eles não sabem o que é que fizeram.

Então, é uma situação que estamos a viver neste momento, que é uma crise tremenda a nível da ciência e da intelectualidade. É uma crise muito grande. Não temos debates, debates abertos, não só sobre literatura, mas sobre o próprio ensino. As pessoas que vão à televisão, que é o meio que tem mais popularidade, falam de tudo, mas não chegam a atingir este aspecto que eu falei: que não há livros. As pessoas nunca dizem isto. Diz-se que temos nove milhões de alunos, que é uma grande conquista, que estamos a construir X escolas, mas não há este debate sobre a situação.

Aquela maka que eu estava para fazer na União dos Escritores, eu fui fazê-la [em] uma universidade independente. Fui convidado por um professor, falei com os alunos e apresentei os meus pontos de vista sobre o Prêmio DST/Camões 2025. E eu propus a ele tomar o ano todo, até ao ano que vem, para fazer um colóquio sobre literatura angolana. Vamos convidar professores de outras províncias; angariar fundos; pedir patrocínio a grandes empresas para fazer um colóquio, que já não se faz há mais de vinte anos aqui em Angola. Não se faz nenhum colóquio sobre literatura. Ficou-se paralisado no tempo.

DO: Ao longo da sua trajetória, como tem sido a recepção crítica das suas obras dentro de Angola? E fora do país? O reconhecimento internacional influencia a legitimação interna do autor angolano?

“Então, a situação é essa que temos aqui no país, em termos de literatura. O Estado devia subvencionar o preço, o custo do livro, como fez com a gasolina – ainda faz -, porque eu digo que o livro é mais importante que a gasolina”

JLM: Sim, o reconhecimento internacional é uma grande legitimação da nossa obra. Eu tenho mais estudos feitos fora do país do que aqui dentro. Os ensaístas portugueses e até um francês que analisou a minha última obra, que é As metamorfoses do elefante, um romance, que fez com que alguém do Brasil adquirisse os seus direitos para publicar o livro no Brasil. Foi publicado agora no Brasil, As metamorfoses do elefante.

Então, se você fica confinado aqui no país, que eu chamo um gueto literário, você não vai ter reconhecimento internacional. Não pode ganhar nenhum prêmio desses que há a nível mundial. Vai ser difícil você ganhar um prêmio, mesmo que tenha mérito a sua obra. Se você concorrer ao Prêmio Oceanos, que é aí no Brasil e em Portugal, na seleção, a primeira seleção, antes de chegar ao júri, eles vão ver: “Epa! José Luís Mendonça ninguém conhece”. Está a perceber? Pepetela, sim; Ondjaki, sim; José Eduardo Agualusa, sim. Então, é difícil, porque você não é conhecido lá fora. Ninguém sabe quem é o José Luís Mendonça.

Agora, aqui há alguns estudantes, como o Helder Simbad, que se debruçam sobre a minha obra. É um dos poucos. Mas, tirando ele, pouca gente tem, não sei se é tempo ou paciência, para ler. As pessoas não leem. Então, o livro sai e as pessoas compram e metem na estante. É difícil encontrar alguém que leia. Além do Helder Simbad, há dois ou três jovens que fazem coisas na universidade que não saem cá para fora.

Há um jovem que faz estudos literários, que é o João Martinho, esse, sim; e há outro, que é o João Ngona Trindade. Tirando essas três personalidades que fazem escrita de qualidade em termos de ensaística, não temos muita gente. A minha amiga Domingas Monte, que professora na Faculdade de Humanidades, também leva-me lá para apresentar obras e alguns alunos se debruçam sobre as obras, mas, tirando isso, não há mais nada, não há mais nada…

Veja lá que eu concorri ao Prêmio Sagrada Esperança, em 2023, com o romance que saiu em Portugal e, agora, vai sair aqui por uma editora privada; e o júri, na ata, disse que as obras que foram concorrentes não tinham qualidade e estavam mal escritas. Fez uma apreciação geral de tudo. Por quê? Porque o presidente do júri é do MPLA; o jovem que meteram lá no júri também é um jovem da Brigada Jovem, também é da JMPLA; estava mais um terceiro membro que eu não sei quem é, mas o presidente é quem manda, então, a minha obra era muito crítica do regime. Chama-se Um pássaro na lua. Saiu em Portugal pela Guerra & Paz.

Essa é a situação. Vamos ver agora, quando o livro sair, se algum crítico literário se debruça sobre a obra e faz alguma coisa. Mas, depois da crítica sair, não há tertúlias, nem na União dos Escritores para se debater a obra, para se falar um bocado dela. Os livros dificilmente ficam expostos à venda. O preço é proibitivo, ninguém compra. O meu livro As metamorfoses do elefante deve estar a custar agora 9 ou 10 mil kwanzas. Pouca gente o compra.

Foto de Dalyson Oliveira – Eu Sendo Leitor

Então, a situação é essa que temos aqui no país, em termos de literatura. O Estado devia subvencionar o preço, o custo do livro, como fez com a gasolina – ainda faz -, porque eu digo que o livro é mais importante que a gasolina. E, pelo menos, apetrechar as bibliotecas das escolas e das universidades para ter todos esses livros lá, para os estudantes terem acesso aos livros no ensino médio, no ensino superior e nos bairros. Portanto, esta é uma grande lacuna que temos aqui no país, por isso é que não há uma grande projeção das nossas obras aqui no país, mais fora.

DO: Que função a União dos Escritores Angolanos e outras instituições semelhantes têm assumido no debate sobre literatura e na consolidação de uma crítica literária em Angola?

“Há 20 ou 25 anos para cá, a União dos Escritores foi assolada por uma coisa que nós chamamos aqui de “cabritismo”, que é: o cabrito come onde está amarrado”

JLM: É nulo. A União dos Escritores tem papel, praticamente, zero. Por quê? No tempo do Luandino Vieira havia makas, às quartas-feiras, muito sérias. No tempo do Partido Único, que era uma ditadura democrática do proletariado, havia debate sobre literatura, embora todos eles fossem partidarizados, mas, pronto, debatiam-se os textos, mesmo daqueles “cantalutistas” e etc.

Quando a veio a sair do país, depois das primeiras eleições, a União dos Escritores foi tendo alguns dirigentes com uma certa qualidade de gestão, mas depois foi diminuindo. Há 20 ou 25 anos para cá, a União dos Escritores foi assolada por uma coisa que nós chamamos aqui de “cabritismo”, que é: o cabrito come onde está amarrado, que era o patrimonialismo. As pessoas vivem num sítio, é ministro e têm que ficar ricas com os bens do Estado.

Os Secretários-gerais que estiverem ali, principalmente, o penúltimo, antes deste, apropriou-se dos bens da União, acaparou-se de fundos que vinham da renda do espaço da União dos Escritores. A União dos Escritores deixou de produzir livro, deixou de ser uma editora. Há 20 anos ou 15 que a União dos Escritores já não tem papel de editora, até hoje. Então, parou completamente no tempo e no espaço. Está uma casa velha, praticamente abandonada.

O Helder Simbad é que mantém ali o movimento de pessoas, organiza as makas, às quartas-feiras, leva para lá os jovens para fazerem tertúlias poéticas e falar sobre literatura. Agora vai fazer lá um outro colóquio. Eu não irei. Ele queria que eu fosse, mas eu não vou, porque estou muito desastrado psicologicamente, por causa do que fizeram comigo.

E pronto, a União dos Escritores já não tem o papel que tinha antigamente. Perdeu patrimônio, perdeu muita coisa, tem problemas de gestão e a questão é que ninguém diz nada. As pessoas, os escritores… Aquilo é uma instituição pretensamente privada, é uma associação cultural. Fazem assembleias gerais e ninguém pergunta: “Onde é que está o patrimônio da União?” “Por que é que os trabalhadores não têm salário?” Ninguém diz nada. Todo mundo fica calado. E esse aspecto é que me fez afastar. Tive 5 anos longe da União dos Escritores, voltei em 2023, a convite do novo Secretário-geral, publicou-se lá um livro. Quer dizer, o livro é patrocinado pela Imprensa Nacional, não foi a União dos Escritores que pagou, mas tem a chancela da União dos Escritores. Um livro pequenino de 60 páginas, de bolso, custa 16 mil kwanzas. Eu disse ao homem da Imprensa:

“Você fez o livro para não ser vendido. Você faz um livro desse tamanho, pequenino, com 30 poemas – são 30 odes -, e está a vender o livro a 16 mil kwanzas? Não é possível. Ninguém vai comprar.”

Estamos numa situação que, até para definir, eu tinha que estudar mais um bocado de Ciência Política e um bocado de Psicologia também, porque é um estado… O cidadão angolano, mesmo o que está em alta esfera, está num estado psicológico de grande distúrbio, grande confusão. É uma situação de grande confusão mental. As pessoas fazem as coisas para ganhar ainda dinheiro, querem ganhar dinheiro à força.

A União dos Escritores deixou de funcionar. Os tais movimentos literários jovens, que é o Litteragris, vão fazendo essas coisas, [como] a revista, e pronto, a coisa vai andando, como se diz na gíria.

DO: Quais são os autores mais recorrentes nas análises críticas recentes? Por que são esses, e não outros, os escolhidos da crítica angolana?

“Então, eu não tenho assim a noção de quais são os autores que são tratados nessas críticas literárias, mas essa crítica literária que vai saindo, às vezes, são textos laudatórios: elogiam a obra, só elogiam a obra. Quer dizer, dizem que a obra tem essas características e aquelas e mais nada.”

JLM: Bom, a crítica feita pela revista Mayombe, lá do Helder, aborda alguns autores jovens. Alguns autores jovens que eu nunca mais li. Eu também escrevi lá algumas coisas, mas já foi no passado. Saem livros de Pepetela, que é um grande escritor, mas não recebem crítica. Já saiu o livro do João Melo. Há uma coleção que foi produzida agora pela Mayamba.

Agora vai sair um livro de um escritor chamado Sousa Jamba, que é um escritor meio proscrito, que vive fora do país [e] veio passar uns tempos aqui. O livro chama-se A casa das casa das duas Bíblias. É um escritor que tinha o irmão na UNITA, do partido da oposição, então, estava meio proscrito. Agora, está a publicar um livro e, curiosamente, o livro era para ser publicado na União dos Escritores, e foi proibido também. A mim proibiram-me de fazer uma maka; a ele, o livro. Já estava tudo organizado: o Helder Simbad já tinha feito o flyer; se não me engano, o Martinho que ia apresentar o livro…

E, no momento, eu disse que não valia a pena ir à União, o livro vai ser lançado nas Edições Paulinas, ali da Igreja Católica. E eu ainda perguntei ao Sousa Jamba o que é que se passou e ele também não sabe, nem quer se meter em política.

Então, eu não tenho assim a noção de quais são os autores que são tratados nessas críticas literárias, mas essa crítica literária que vai saindo, às vezes, são textos laudatórios: elogiam a obra, só elogiam a obra. Quer dizer, dizem que a obra tem essas características e aquelas e mais nada.

Mas há muita coisa que merecia uma crítica, até para os autores reverem o seu método de escrita, o seu modelo de escrita. É preciso dizer aos autores que é preciso melhorar as obras, fazer uma segunda edição, e isso nunca sai. Essa é, para mim, a grande questão.

BA: Quando a gente perguntou para o Helder Simbad quem seriam os autores — essa pergunta que o Dalyson fez agora —, os autores que estão sendo valorizados no cenário da literatura angolana atual, ele disse um nome, e um só, a princípio – depois falou outros – mas o nome que ele disse foi João Tala.

Nestes dois autores, o João Tala e o João Maimona, e o Helder Simbad não está de acordo comigo, eu chamo isso de “poesia sem chão”: é tudo muito belo, muito bonito, em palavras boas da Língua Portuguesa, mas é como se o autor não tivesse uma experiência terrena aqui dentro desta terra africana. Falta um bocado de africanidade, falta muito de africanidade.

JLM: Ah, sim. O João Tala é um bom poeta. Tem uma poesia de cariz abstrato. É um trabalho que ele tem feito e que merece também um enquadramento na linha telúrica da nossa poesia. O João Tala e o João Maimona têm este tipo de poesia. A poesia deles eu chamo “uma poesia muito aérea, muito nas nuvens”. Há poemas que, se você for estrangeiro e ler o poema, você não nota logo na poesia… Quando você lê a poesia de Thomas Tranströmer, Prêmio Nobel, você vê que ele é sueco na poesia; você vê que ele é sueco, tem coisas da Suécia.

Nestes dois autores, o João Tala e o João Maimona, e o Helder Simbad não está de acordo comigo, eu chamo isso de “poesia sem chão”: é tudo muito belo, muito bonito, em palavras boas da Língua Portuguesa, mas é como se o autor não tivesse uma experiência terrena aqui dentro desta terra africana. Falta um bocado de africanidade, falta muito de africanidade.

Você conhece o José Craveirinha, Bernardo?

BA: Sim, conheço.

JLM: Está a ver? O José Craveirinha pertence a Moçambique. É isso que falta no João Tala. Embora seja uma poesia perfeita, em termos linguísticos, um bom português, tudo muito bonito, mas há referentes termos que não pertencem aqui a Angola, tem termos lá que são mais do universo europeu, mas para o Helder Simbad é boa poesia. Saiu do “cantalutismo”, pertence à geração dos que estão a transformar a poesia. São opiniões diversas, eu tenho outra opinião sobre o assunto.

Se vocês tiverem acesso a essa poesia, depois estudem-na bem e vejam o que é que eu estou a dizer.

DO: Na Gazeta Lavra & Oficina (Edição nº 001, nov./dez. 2020), em entrevista concedida ao pesquisador João Maria, o escritor Boaventura Cardoso afirma que “faz-nos muita falta a crítica literária e é importante que seja constituída em instituição” (p. 10). De modo semelhante, Michel Kanianga, na Edição nº 004 (maio/jun. 2021), ao discutir a produção do livro em Angola, aponta como ausências no mercado editorial “críticos literários assumidos e empenhados” (p. 19). O senhor concorda com essas perspectivas sobre a fragilidade da crítica literária em Angola

JLM: Absolutamente. Eu concordo. Eu próprio tenho dito a mesma coisa por outras palavras. A institucionalização da crítica literária poderia ser feita através da Faculdade de Humanidades; do Instituto Superior de Ciências da Educação, o ISCED, onde está o Abreu Paxe, por exemplo, e outros professores de literatura. Mas eu penso que a Faculdade de Humanidades, e mesmo a Universidade Católica, deviam fazer duas escolas: uma da Universidade Católica e outra da Universidade Agostinho Neto, conforme acontece em Portugal, com a Universidade de Lisboa e a Universidade de Coimbra, para haver um debate entre os professores, com o apoio dos alunos, que participassem também, apresentando obras para os alunos analisarem. Isto é o que está a faltar aqui.

O Boaventura Cardoso lançou o último livro, que foi Margens de travessias e, praticamente, não tem nenhuma recensão aqui. Ninguém se debruçou sobre a obra. É um livro muito bom que vai buscar a problemática que até hoje o país vive, que é o problema do 27 de maio de 1977. Houve aqui uma revolta popular em 1977, protagonizada por um membro do MPLA que estava contra a ala que geria o MPLA, e houve um grande massacre. 30 mil pessoas morreram em dois anos. Houve muito fuzilamento, com a intervenção dos cubanos, também, que estavam aqui. Este fenômeno do 27 de maio deixou aqui uma imposição de impunidade das autoridades.

Hoje em dia, um polícia pode chegar à rua, ver uma senhora que está a vender fora do local apropriado e começar logo a cacetada; os fiscais, estando na rua também, pegam um bastão nas senhoras. A mulher sofre muito em Angola e ninguém vai preso.

Mata-se, às vezes, as pessoas. Uma senhora estava a vender perfumes, o fiscal queria os perfumes, foi lá, agarrou-lhe os perfumes, ela lutou e ele deu-lhe um tiro na cabeça. O Ministro do Interior disse que o homem estava preso, mas até hoje não vimos o julgamento.

O Boaventura Cardoso tem um livro, Maio, mês de Maria, que aborda precisamente este fenômeno do 27 de maio. Este livro, Margens de Travessias, também vai abordar a questão da unidade nacional, a reconciliação, a unidade nacional e o problema da impunidade e de uma ordem que partiu do antigo presidente que ele disse que não haverá perdão: “Não perderemos tempo com julgamentos”. Esta frase é recorrente em todo o livro. Portanto, não há um estudo sobre esta obra, talvez por causa disto, porque a imagem do primeiro presidente é intocável, é sagrada. Fez-se um mausoléu do tamanho de uma pirâmide do Egito. O homem está em todo o lado. Cada discurso que ele fazia era uma efeméride em Angola. Então, se você analisar bem o livro e tentar fazer uma crítica honesta e com ética, você pode ter problemas.

Sei que ele diz que não há uma crítica sobre certas obras, como as do Boaventura Cardoso e muitas outras obras… Eu penso que o meu romance, que vai sair agora, vai trazer muitos problemas… Talvez o único que possa fazer uma crítica ousada seja mesmo o Martinho, porque o meu livro aborda a questão das eleições presidenciais: eleições gerais e as eleições presidenciais dentro do próprio partido, que é uma doença.

Essas questões que nós levantamos na literatura, às vezes, fazem-se acompanhar de um silêncio tremendo sobre elas.

DO: O 27 de maio é o que o senhor aborda no livro As metamorfoses do elefante.

Sim. E também no livro O reino das casuarinas. Eu abordo isso nesses dois romances.

O segundo romance, já encontrei coisas que eu não sabia, que são as questões de tortura, torturas que se praticaram às mulheres. Então, eu pus nesse romance muita coisa que ficou escondida até hoje, porque não há uma confissão dos algozes. Pede-se perdão. O governo pediu perdão às vítimas, mas não diz por que pediu perdão, não diz o que fizeram com as vítimas. As vítimas não aparecem. Deram-se 60 ou 100 ou 500 ossadas, e algumas são falsas, não são das pessoas que as disseram, mas nós queríamos uma comissão da verdade, onde os algozes viessem pedir perdão, dizendo: “Eu torturei o fulano, fiz isto”.

Então, nós estamos a saber disso depois. As pessoas já estão velhas. As pessoas que não participaram, mas viram, vão contando: as senhoras que entravam lá presas já faziam isto com elas; houve um fulano que foi cortado aos pedaços, assim, o peito, mas mantiveram vivo; usaram um alicate para torturar pessoas nos testículos… Então, essas coisas que nós estamos a saber agora, afinal, os crimes contra a humanidade praticados nessa altura, entre 1977 e 1979, são horríveis. São coisas que você nem imagina. Então, quando era mulher, era pior.

Eu consegui meter dois tipos de tortura no romance As metamorfoses do elefante.

DO: Que caminhos o senhor considera fundamentais para o fortalecimento da crítica literária em Angola nos próximos anos?

Para ser crítico literário, é a mesma coisa que para ser escritor: há pressupostos básicos: um é epistemológico, o conhecimento da literatura; depois temos outro, que é antropossociológico, o conhecimento da idiossincrasia do povo, da natureza das coisas aqui em Angola, através da própria literatura.

JLM: Tudo passa pelo ensino. Há uma ligação muito estreita entre o ensino e a literatura, entre o sistema de ensino e o sistema literário.

Só houve escritores negros angolanos quando o sistema de ensino, no tempo colonial, nos anos 1930 do século XX, abriu-se aos autóctones. Foi assim que surgiram dois escritores muito fundamentais, que o pai do romance angolano, António de Assis Júnior; e o outro poeta, cujo nome agora me está a falhar.

Então, nós temos um ensino de péssima qualidade, em que não se preza a leitura dos próprios manuais escolares. Para ser crítico literário, é a mesma coisa que para ser escritor: há pressupostos básicos: um é epistemológico, o conhecimento da literatura; depois temos um outro, que é antropossociológico, o conhecimento da idiossincrasia do povo, da natureza das coisas aqui em Angola, através da própria literatura. O romance de Luandino Vieira, Manuel Rui, você lendo muito vai aprender a escrever como Manuel Rui, tem que falar sobre isto: as pessoas humildes, captar a essência da voz dessas pessoas, como fez, no Brasil, o João Guimarães Rosa.

Então, falta isto para haver uma boa crítica literária. É preciso que os estudantes, que vão do ensino médio e do ensino universitário, passem por aí; leiam autores brasileiros, autores portugueses, autores moçambicanos, autores nigerianos, autores russos.Ele não tem esta panorâmica de estilos, não tem na cabeça. Ele não tem a noção de que, quando John Steinbeck escreveu As Vinhas da Ira, estava a meter ali, no romance, a alma do povo americano. Ele nunca leu, por exemplo, José Cardoso Pires, para ver ali como é a alma do povo português, aqueles povos que passam por aí. Nunca leu Memorial do Convento, de José Saramago, porque, se ele tivesse lido isto, ia procurar fazer um romance pegando nas vozes populares, na história do povo angolano. Há aqui muito romance que sai – não sei se é feito com inteligência artificial – muito fora do contexto.

E a crítica literária também, porque a melhor crítica literária é a crítica da literatura comparada. Eu nunca estudei crítica literária, mas faço crítica comparando livros. Pego dois ou três livros de um autor estrangeiro mais próximo de nós e vou mostrando as coisas.

Eu, para criticar o tal poeta João Tala e o João Maimona, fui buscar José Craveirinha, fui buscar Wole Soyinka, fui buscar a própria poesia angolana, aquele autor de Angola, Angola, Angola. E, então, eu consigo fazer, com a literatura comparada, as melhores críticas que se produzem aqui no país, embora não sejam conhecidas como crítica literária.

Então, para haver uma boa safra de crítica literária, é preciso que o ensino mude o seu paradigma: bibliotecas, leituras, muita leitura mesmo, literatura nacional, literatura universal; [daí]vamos ter bons críticos no futuro, porque eles já vêm com uma mente rica em leituras para poder fazer crítica literária, senão, é difícil.

Referências


Rede Girassol. BIOGRAFIA | José Luís Mendonça. YouTube,19 de agosto de 2024. 41m45s. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eUPqpj1ULn8&t=79s. Acesso em: 13 de junho de 2026

José Luís Mendonça na Infopédia [em linha]. Porto Editora. Disponível em https://www.infopedia.pt/artigos/$jose-luis-mendonca [visualizado em 2026-06-13 18:21:12].

MENDONÇA, José Luís. “Carlos Drummond continua a fascinar-me”. Poesia Sempre, Brasília, n. esp. Dedicado à poesia de Angola e Moçambique, n. 23, p. 17-20, 2006.


[1] De fato, a obra “O País dramaticamente estável”, de Kizola Ângelo Chaniel, ganhou o Prêmio Sagrada Esperança, em 2021.

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