
“Tecnicamente, é essa a função da literatura: nos humanizar e explicar a cultura”: entrevista com o Professor Abreu Paxe
“Então, quer dizer que, quando aqui ainda se fazia o trabalho de separar o trigo do joio, o Brasil, à medida que fosse recebendo o material, tudo aquilo que recebia valia como literatura“

Alguns caminhos me levaram até Angola, outros, fizeram com que eu conseguisse uma entrevista com o Professor Abreu Paxe, para o desenvolvimento do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), no qual pesquiso a crítica literária dentro do cenário angolano. Como parte do processo de desenvolvimento da pesquisa, entrevistei alguns críticos e autores angolanos, com o intuito de compreender como eles percebem a crítica literária no contexto angolano e qual o lugar que ela ocupa na legitimação dessas obras. Com as entrevistas, imaginei que seria possível chegar o mais próximo da concepção de Crítica Literária dentro de Angola.
Esta é a segunda entrevista1 que compartilho aqui no blog – a primeira foi com o crítico literário Helder Simbad – e estou muito feliz dizer que ela é com o Professor e Crítico Literário Abreu Paxe. Eu o conheci quando estive em Angola, por meio do Programa Caminhos Amefricanos, em dezembro de 2025. Na ocasião, participei de uma mesa intitulada “Os Caminhos das Línguas e das Literaturas em Angola e o Papel da União dos Escritores Angolanos”, com Abreu Paxe, Adriano Mixinge, Amélia da Lomba e Domingas Monte, mediada pelo ilustre Lopito Feijó, na União dos Escritores Angolanos.
Quando o Professor Bernardo indicou o nome do Paxe, fiquei muito empolgado com a possibilidade de revê-lo novamente, dessa vez, para conversar sobre crítica literária. A entrevista foi realizada pelo Google Meet, no dia 25 de maio de 2025, numa segunda-feira frienta. A conversa foi muito proveitosa e essencial para o desenvolvimento da minha pesquisa. Gratidão ao Professor Abreu Paxe por ter aceitado o convite e ao Professor Bernardo por ter intermediado esse contato e contribuído para a realização desta entrevista e de toda a pesquisa.
Abreu Paxe: Professor, crítico literário e poeta

Abreu Castelo Vieira dos Paxe, mais conhecido como Abreu Paxe, é poeta, ensaista, crítico literário e professor universitário. Ele nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe, na província do Uíge, em Angola. Membro da União dos Escritores Angolanos, Paxe é formado em Ciência da Educação, Ensino de Língua Portuguesa e de Literatura, pela Universidade Agostinho Neto, mestre em Ensino de Literaturas em Língua Portuguesa pela mesma instituição e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC – São Paulo.
DO: Periódicos como Mayombe; Lavra & Oficina, da União dos Escritores Angolanos; e a seção “Cultura”, do Jornal de Angola, configuram um espaço para a crítica de obras literárias, em anos recentes. Como o senhor avalia a atuação desses veículos, no contexto do desenvolvimento do sistema literário angolano?
“Então, esses jornais, no fundo, ou as revistas, faziam o papel que a ausência das instituições de ensino superior, com atividades voltadas ao estudo e crítica da literatura angolana, não faziam.“
AP: Bem, na verdade, como é que eu diria? A imprensa tem a responsabilidade de ser o intermediário entre o produto literário e os seus leitores. E, também, na imprensa, onde se fazem ou se vertem as ideias ou aquilo que nós chamaríamos de literatura das ideias. Então, a criação desses periódicos, no caso, Mayombe, a Lavra & Oficina, sobretudo a Lavra & Oficina, desempenharam papéis fundamentais na sistematização do fenômeno literário angolano.
Claro que, ao lado da página do Jornal de Angola, que é Vida e Cultura, que era também um suplemento fundamental, ajudaram a sistematizar, porque como em Angola, na altura, ainda não havia crítica literária sistematizada no sistema de ensino ou na universidade, sobretudo, – até porque os cursos superiores não tinham especificamente essa disciplina, pelo menos logo depois da independência. Então, esses jornais, no fundo, ou as revistas, faziam o papel que a ausência das instituições de ensino superior, com atividades voltadas ao estudo e crítica da literatura angolana, não faziam. Aquilo que essas instituições não faziam no ensino superior, aquilo que não existia, era feito por essas revistas. Então, esse, sobretudo, é o grande contributo.
BA: Professor, essa disciplina de Crítica Literária existe, por exemplo, aí no ISCED de Luanda? Existe a disciplina Crítica Literária?
Não tem como a gente ficar preso com modelos do passado e entender que a crítica só é porque é feita por pessoas amplamente publicitadas, no caso de ser escritor, ou, então, só quando é feita no jornal.
AP: Não. Aqui também tem havido um problema sério, em que em nível dos próprios escritores, há quem entende que hoje já não se faz crítica, porque eles ficaram com a ideia de que a crítica é aquela que era feita no jornal. E hoje criam-se os cursos de letras. Tem a Faculdade de Letras, da Faculdade de Humanidades; tem o ISCED de Luanda. Ao se fazer os trabalhos de fim do curso, os TCCs, trabalho de fim do curso, também os trabalhos a nível das pós-graduações, mestrado e doutoramento, esse exercício não deixa de ser crítico, do ponto de vista técnico. Mas, como habitualmente a crítica era feita no jornal, e pelos próprios escritores, então, a ideia que ficou é que só se faz crítica a partir daquelas vozes autorizadas e no jornal.
Então, também é uma discussão que nós temos estado a tentar atualizar, de modo a alertar as pessoas, a entenderem que a tradição que havia antes, em que os periódicos, as revistas é que exerciam a crítica, hoje, com o surgimento das instituições de ensino superior, com cursos voltados ao estudo das literaturas, já temos, tecnicamente, condições acadêmicas e científicas até do exercício da crítica nesse sentido. Não tem como a gente ficar preso com modelos do passado e entender que a crítica só é porque é feita por pessoas amplamente publicitadas, no caso de ser escritor, ou, então, só quando é feita no jornal.
DO: Em que medida esses periódicos contribuíram para a consolidação de autores e movimentos literários angolanos?
“O trabalho que esses periódicos fizeram, longe de pensar no processo de consolidação, é mais, para mim, aquilo que nós consideraríamos sistematização“
AP: Aquilo que eu já disse: há um processo de sistematização. Agora, se isso é consolidação, não sei, mas há um processo de sistematização em que nós sabemos que, em Angola, foram surgindo diferentes gerações de escritores que praticavam os diferentes gêneros, desde a poesia, desde a prosa, desde o texto dramático. Fora do próprio âmbito literário, também tínhamos as outras formas artísticas, como o cinema, o teatro. Enfim, todo esse momento foi crescendo e sendo arrumado com o próprio país, porque a literatura angolana cresceu, no sentido angolano do termo, com o próprio país.
O trabalho que esses periódicos fizeram, longe de pensar no processo de consolidação, é mais, para mim, aquilo que nós consideraríamos sistematização. Porque aquilo que eles produziram, em termos documentais e arquivísticos, ajudam muito para muita informação de ordem histórica, documental, que a gente precisa ter na literatura, a partir desse recorte epocal, de época, nesse caso. Então, tecnicamente, é nesse momento que eu gostaria de lhe responder. Quer dizer que, pra mim, não está mais a questão da consolidação, mas sim da sistematização.
DO: As universidades costumam assumir um papel fundamental na consolidação de uma crítica literária “audaz e regular”. Como as universidades angolanas atuam nesse espaço da crítica da Literatura Angolana?
Os professores que estão aí no Brasil, que são estudiosos das literaturas africanas, e que estão em Portugal, também estudiosos das literaturas africanas, esses são os mais credíveis, porque são amigos dos escritores e foram acompanhando o próprio crescimento do processo da literatura angolana.
AP: Há, na verdade, ainda, esse desfasamento. A universidade não assumiu o seu papel. A crítica, tecnicamente, a mais acreditada e esperada pelos cultores da literatura, pelos escritores, é a que é exercida fora. Os professores que estão aí no Brasil, que são estudiosos das literaturas africanas, e que estão em Portugal, também estudiosos das literaturas africanas, esses são os mais credíveis, porque são amigos dos escritores e foram acompanhando o próprio crescimento do processo da literatura angolana.
Então, amigos de escritores acompanharam a literatura angolana no seu crescimento, pós-independência. Então, ficávamos habituados ou presos a uma crítica universitária feita por esses dois setores: o lado brasileiro, com a criação das literaturas africanas, que acho que deve ter começado no Rio, depois, foi para São Paulo; ou ao grupo do Rio e ao grupo de São Paulo e depois é que se estendeu em alguns outros estados.
Essa crítica feita no Brasil e em Portugal é que os escritores mais acreditam e esperam. A que vai sendo feita por via dos estudos, os trabalhos no fim do curso, os trabalhos de mestrado, de doutoramento, praticamente, nem entra no inventário, não está sistematizado, então, é uma coisa praticamente que não se acredita, mas não estou a dizer que esses trabalhos não tenham valor, tem, muito até. Mas só que, na crença dos autores, para eles, o que vale é mais uma crítica que vem do Brasil, que vem de Portugal, do que aquela que é feita pelos próprios angolanos, na universidade.
Uma vez que a universidade, enquanto a literatura angolana enfeverescia, ainda estava ausente deste cenário, então, pouco ou nada praticamente deu aquilo que os escritores, pelo menos, esperavam. Então, essa descrença, ou esse afastamento, ou esse divórcio, se podemos chamar assim, se verifica até hoje. Mas, em rigor, diríamos que aquilo que nós temos já produzido e publicado como materiais, defendidos na Escola de Ensino Superior, em termos de estudos literários, é uma matéria que eu acho que contribui enormemente para a compreensão daquilo que são os propósitos dos próprios cursos, do seu estudo da literatura.
BA: Professor, você acha que há muita diferença, ou alguma diferença, entre os critérios, os parâmetros, as formas de separar o trigo do joio, de críticos brasileiros e portugueses, por um lado; e críticos estudiosos angolanos, por outro?
“Agora, há, sim, essa necessidade de separar o trigo do joio”
AP: Não tanto, porque é assim: a literatura tem as suas sutilezas. Há matizes ideológicas que nos permitem ter mais tendência de um tipo de cultores do que outros. Estou falando, por exemplo, da poesia: os concretistas, os experimentalistas… Aqueles que têm um discurso mais avançado pro verso livre, podem ser vistos, num ângulo, como sendo um modelo. Mas tem também os outros conservadores, que ainda usam aquelas formas tradicionais. Agora, há, sim, essa necessidade de separar o trigo do joio. O trabalho que muitas das vezes esses periódicos, Jornal da Angola, foram fazendo… mas se hoje, por exemplo, em rigor, olharmos para um recorte histórico e virmos aquilo que foi produzindo, o sentido de leitura muda completamente.
Por exemplo, só para dar um exemplo, Professor Bernardo, há um escritor, romancista angolano Uanhenga Xitu, tem um livro O Ministro, e ele abre esse livro como poema. Mas toda a gente, durante esses anos todos, nunca levou a sério aquilo. Para eles, aquilo não é poema.

Ele escreve poema com “U” e aquilo tem mais um caráter prosaico, crítico, sarcasmo, etc. Mas, em termos de construção artística, ele cumpre com aquilo que nós esperaríamos de um texto literário. E, para já, a forma como ele próprio trabalha os litígios entre o quimbundo e o português, os litígios entre colonização, independência e pós-independência, quando depois os que são os libertadores adotam os hábitos do colonizador, não mudando nada, tecnicamente… Enfim, há todo um conjunto de elementos que se entrelaçam e cruzam na textura textual, estética, sobretudo, em que, à vista desarmada, aquilo parece nada. Há textos escritos que diziam que ele mesmo, Uanhenga Xitu, devia deixar de escrever, porque aquilo que ele fazia não era literatura, por causa da forma como ele ia buscar aqueles falares populares e trazia-os para a literatura sem um trabalho depurado.
Quando falamos de separar o trigo e o joio, havia uma certa militância, até pedantismo, de grupos que tinham uma tendência estética. Era essa tendência que servia como régua para regular todo o resto. Mas aquela crítica visada que se estende para compreender as diferentes épocas, as diferentes escolas, os diferentes períodos literários, rigorosamente, não havia nesse sentido. Aquilo que se foi fazendo, em parte, no Brasil, e mesmo em Portugal, era primeiro esse princípio da literatura engajada, a literatura de engajamento político, libertária, enfim.
Então, eles vão e trabalham nesse nicho. Quando começam a aparecer vozes que vão desenvolver uma tendência artística, que é mais o compromisso estético mesmo, no sentido pleno da palavra, eles praticamente começam a ser… Ou seja, ficam nesse limbo, porque a ordem principal era esse princípio do engajamento. Então, por exemplo, olhar para um Ruy Duarte Carvalho, olhar para um Davide Mestre ou, então, um Arlindo Barbeitos, já os olham de esguelha, porque eles já não têm assumido esse compromisso engajado, mas têm mais compromisso com o lado estético, nem que para isso vão buscar os aspectos ligados à matriz tradicional, Bantu e todo o resto disso. Então, há também essas fronteiras tênues que nós precisamos vigiar para este lugar de consolidação do próprio sistema acadêmico angolano, naquilo que o estudo literário diz respeito.
DO: O moçambicano João Paulo Borges Coelho menciona, no texto “Lugar da escrita, o lugar da crítica”, que o eixo da crítica literária dos países africanos de língua portuguesa é o eixo-bipolar Brasil-Portugal.
“há essa ideia ainda bipolar, em que, eu ser lido ou ter um prefácio no meu livro por um professor do Brasil, de estudos africanos no Brasil ou em Portugal, dá mais a certeza de ser escritor do que o contrário”
AP: O que eu disse é exatamente isso. Esse eixo bipolar é que vai orientar a crença, porque os escritores, para acreditarem que estavam fazendo literatura, primeiro, andavam atrás desses professores para pedir prefácio ou andavam atrás desses professores para mandarem os livros para que escrevam sobre as obras deles. E o mesmo, por exemplo, não ocorria e não ocorre quando o próprio professor angolano ou um escritor angolano lê e publica, diga alguma coisa sobre esse livro.
Então, há essa ideia ainda bipolar, em que, eu ser lido ou ter um prefácio no meu livro por um professor do Brasil, de estudos africanos no Brasil ou em Portugal, dá mais a certeza de ser escritor do que o contrário. No fundo, era assim. O pessoal pensa, oh, ainda pensam hoje, infelizmente, mas claro que com o tempo a gente acha que vamos conseguir repor isso de modo natural. Mas há mesmo essa bipolaridade.
DO: Fazendo a crítica da crítica, José Luís Mendonça afirma, em entrevista à revista Poesia Sempre, em 2006, o seguinte: “Os críticos brasileiros aplaudem tudo o que se produz aqui [no continente africano] e lhes chega às mãos. Ora, o próprio poeta, o escritor em geral, também precisa que se lhe diga em que aspectos pode melhorar a sua obra, não se pode criticar sem criticar” (Mendonça, 2006, p. 20). Ainda na mesma entrevista, o autor afirma que, no contexto de Angola, a questão da crítica literária é mais complexa. Diz ele: “Angola é um país onde ainda não existe uma crítica literária audaz e regular” (Mendonça, 2006, p. 20). E continua: “O poeta Ruy Duarte diz mesmo que não há crítica literária em Angola e isso não permite separar o trigo do joio”. Nesse sentido, gostaria de saber: na sua perspectiva, a crítica – e o senhor já falou que ela ajuda a separar o trigo do joio –, mas nos últimos 20 anos, a crítica literária se desenvolveu?
“O exercício crítico é mais um exercício de leitura. E, também, o exercício de leitura não pode ser um exercício que fique fechado em roteiros fixos. Agora, a possibilidade ou o risco de um crítico falhar é igual ao escritor que diz que falhou, por exemplo.”
AP: É o seguinte: primeiro, também temos que separar o trigo do joio. Nem toda a crítica literária brasileira promove tudo. Há crítica literária brasileira feita fora das universidades que lê a literatura angolana a partir de um rigor estético muito sério. Então, isso mostra que não estão alinhados a outros. Agora, o aspecto que o Mendonça fala, que se aceita tudo, talvez seja a partir desse lugar que eu falava, do engajamento político. Então, quer dizer que, quando aqui ainda se fazia o trabalho de separar o trigo do joio, o Brasil, à medida que fosse recebendo o material, tudo aquilo que recebia valia como literatura, mas isso não acontecia em todo lugar do Brasil ou com todos os estudiosos. Isso também era preciso, se calhar, dizer exatamente de que caso se tratava ou se trata.
Embora ocorresse, mas não ocorra com todos. Isso é importante. E, por outro lado, aquilo que também disse que ele falou, tecnicamente, é aquilo que eu atrás já falava em relação à crítica. Mas sabes que o próprio exercício crítico não tem a responsabilidade de criar prescrições. O exercício crítico é mais um exercício de leitura. E, também, o exercício de leitura não pode ser um exercício que fique fechado em roteiros fixos. Agora, a possibilidade ou o risco de um crítico falhar é igual ao escritor que diz que falhou, por exemplo.
Quando estamos a falar da crítica, tecnicamente. pode ser nesse sentido, porque há muitos escritores, ou alguns escritores, que se afastaram da forma de compor o verso tradicional, da forma de compor a literatura conforme foi concebida. Por não serem compreendidos, foram rotulados de que não faziam literatura, que andavam a escrever para estrangeiros, que andavam não sei o quê. E o Mendonça liderou esse tipo de discursos, com textos escritos, publicados e com entrevistas. Ele tem muitas entrevistas dadas com isso, e até coisas escritas, em que ele diz que há escritores em Angola que escrevem para os brasileiros. Entendeu? Por quê? Porque, claro, os brasileiros, como os entenderam, então eles já não são escritores angolanos; agora, passam a ser escritores brasileiros, enfim.
Então, há também – talvez aí se entenda a ausência da universidade – esse pedantismo também crítico, da parte da crítica. E muitos autointitularam-se críticos precisamente porque, como tinham espaços para escrever em jornais, tinham essa prerrogativa, então, a primeira possibilidade que ele tinha de ler uma obra, se ele, de certeza, não tivesse simpatia, ou pelo autor da obra, ou pelo tipo de trabalho que o autor propõe, ele ia logo para o jornal para dizer que aquilo não era [literatura]… Com prescrições… Os exercícios críticos não têm nada a ver com isso em nenhuma parte do mundo, rigorosamente.
Agora, claro que eu, na qualidade de estudioso da literatura, como professor, já entendo isso e os deslizes ou o terreno movediço que a própria literatura representa. O nosso desafio hoje, todo ele, é, precisamente, nos reposicionarmos não só do ponto de vista crítico, acadêmico, como também da própria formação do próprio escritor. Não aquele escritor que a gente quer que venha com a cabeça feita, mas aquele que entenda bem o meio em que ele está e que ele possa, do modo estético, interrogar. Mas interrogando do modo estético no sentido exemplar do fazer literatura. É mais ou menos nessa perspectiva que eu falo. Sobre isso que o Luís Mendonça faz, aliás, se eu recomendar que se faça um levantamento nos jornais em Angola, ele tem muitos desse tipo de pronunciamento, ou em entrevistas ou escritos, porque também, em muitos casos, ele próprio foi criando paradoxos.
Mas claro que ele não deixa de ter, em parte, razão naquilo que diz, mas, a princípio, sobre a primeira parte da sua questão, sobre aquilo que ele diz, não é que o Brasil faça isso ou que todo o Brasil faça isso. Há alguns setores bem identificados que promoveram isso, mas também nem todos. É isso que eu quero salvar.
BA: Professor, você mencionou uma fala do Mendonça que me chamou a atenção. Talvez seja interessante você explorar um pouco mais isso para a gente. A fala é a seguinte: “Há escritores angolanos que escrevem para brasileiros”. Isso é verdade em alguma medida?
“Não somos nós, os professores, que temos que determinar o que é difícil e o que não é difícil, por exemplo, para levar para a sala de aula“
AP: Ele entende assim, porque diz que o tipo de literatura que fazem é difícil e aquilo em nada serve para os angolanos. Enfim, ele entende assim, mas eu não entendo assim. Escrever difícil é sempre uma perspectiva que cada um se coloca, às vezes, sobre aquilo que está a ler, mas não sei se há escrever difícil. Já discuto isso há muitos anos.
Eu estava em Cabo Verde, numa conferência, numa das atividades, em 2010, acho, se não estou em erro. Há uma professora caboverdiana, ela é santomense, mas mora em Cabo Verde, ela é professora de literaturas africanas. Ela dizia que não levava o poeta João Vário na aula de literaturas africanas, porque o João Vário era um poeta difícil. Eu disse para a professora: “Você, se o olha assim, dê também possibilidade para os alunos poderem dizer alguma coisa em relação ao autor. Se calhar, os alunos o leiam de um modo diferente do que você o lê”.
Não somos nós, os professores, que temos que determinar o que é difícil e o que não é difícil, por exemplo, para levar para a sala de aula. Então, leva o João Vário. Se é escritor, se é poeta, leva-o para a sala de aula. Experimente pelo menos o que os alunos vão dizer em relação a ele. “Ah, não posso”. “A professora já está com prescrições”.
Cria-se uma receita de bolo e vai lá e os alunos têm que seguir aquelas prescrições, mas não é assim, porque a literatura não tem nada a ver com isso. O esforço que nós temos que fazer é sempre de socializar ou democratizar o próprio exercício de leitura.
Agora, o Mendonça, quando diz isso, é do modo como ele entendeu a natureza do texto literário que muitos dos jovens, ou seja, algumas pessoas também, não tantas, propunham ao escrever. Essa acusação também já foi feita… já foram feitas também a alguns poetas, ou algum poeta em Angola, porque ele, como esteve um tempo no Congo – no caso de João Maimona, esteve um tempo no Congo –, escreve também em francês, em França, então, também já foi acusado que ele era um escritor que servia a literatura francesa. Enfim, ou seja, aquela ideia de desterritorializar, como se o território angolano tivesse um, quer dizer, fosse um espaço de literatura própria que não pudesse receber diálogos, não pudesse dialogar com outras realidades culturais ou linguísticas.
Foi mais ou menos nesse sentido que eu entendi o Mendonça e acredito que, para a pergunta que o professor Bernardo fez, não se aplica em Angola. Em Angola, o texto literário aparece muito expandido e exemplarmente bem feito.Desde o diálogo com a tradição oral bantu, o diálogo com as culturas greco-latinas. Enfim, a literatura angolana consegue se traduzir muito bem para aquilo que o mundo vai produzindo como formas aproximadas. Até a Haikai aqui nós cultivamos, que é uma forma de poesia japonesa.
DO: Na sua prática pessoal, quando o senhor escreve uma crítica sobre uma obra angolana, quais são os elementos que prioriza: análise formal, enquadramento histórico, dimensão estética, função social da obra, inserção no cânone?
“o que é que muitos dos escritores angolanos são, na verdade? Tradutores. Eles vão, pegam na cultura, na forma como ela se realiza, e o traduzem em texto.”
AP: Eu acho que esses elementos ficam todos integrados. Todos eles integrados, mas com um grande compromisso. Eu não leio os autores por espírito de época. Não. Eu fico muito preocupado com isso. Eu leio e abordo a obra para explicar na cultura.
Então, por exemplo, quando eu leio Agostinho Neto, releio Agostinho Neto, releio Viriato, releio António Jacinto… Ou seja, eu estou a reler todos os autores angolanos, mesmo agora há pouco, aquilo que eu falava sobre Uanhenga Xitu, eu não lia assim quando li, há 20 anos atrás. Mas eu já o releio hoje – até tenho um texto escrito sobre isso, publicado – e ainda pretendo escrever outros, porque entendi que nesse texto que eu publiquei, não consegui trabalhar o suficiente os elementos da cultura, os desafios, ou seja, o que é que muitos dos escritores angolanos são, na verdade? Tradutores. Eles vão, pegam na cultura, na forma como ela se realiza, e o traduzem em texto.
E esse era o nosso grande desafio, porque nós entendíamos que nós tínhamos que ser puros. Nós estávamos a seguir uma, para nós, uma civilização portuguesa que nós não tínhamos.Nós éramos pequenos portugueses, que não éramos, então, tínhamos que falar como os portugueses falam, tínhamos que escrever com correção portuguesa. Os professores são mais normativistas do que mediadores culturais. Então eu, quando faço estudo, texto literário, o que eu trabalho é, tecnicamente, esse princípio de mediação cultural. Eu levo sempre o texto para a cultura e explico na cultura, mas com todos esses ingredientes, conforme disse, tradicionais.
DO: Quais são os autores mais recorrentes nas análises críticas recentes? Por que são esses, e não outros, os escolhidos da crítica angolana?
“Então, eu não tenho, como posso dizer assim, gavetas, nem corredores específicos para fechar ou para regular esse ou aquele exercício de escrita, porque eu entendo sempre que toda proposta escrita é um desafio de leitura, sempre.”
Eu não tenho pautas, assim, não tenho pautas ou prescrições. Eu, em função de como os textos me interessam, me ajudam a compreender ou a revisitar determinados aspectos da cultura, eu os acolho, independentemente de serem jovens ou mais velhos, escritores mais antigos ou mais recentes, ou mais novos, de obras mais antigas ou mais novas. Eu leio, tecnicamente, assim.
O Boaventura Cardoso e o Manuel Rui têm as obras mais recentes: o Manuel Rui, que é o Kalunga e o Boaventura Cardoso, curiosamente, romance, também, Margens e travessias; eu os leio explicando a cultura. O Manuel Rui mostra isso com o Kalunga e, curiosamente, a palavra “Kalunga”, que, no fundo, tem essa ideia de mar, ideia de infinitude e que também nos interliga – Kalunga nos interliga entre Angola e Brasil que é o mar – e o Manuel Rui, com esse título, Kalunga, vai precisamente trabalhar só por essa protagonista principal, personagem… [Ela] Sai do interior de Angola, mais na zona do Planalto Central, vem para Luanda e depois de Luanda, embarca para o Brasil.


Então, não deixa de fazer um percurso que a escravatura fez. Só que ele não vai falar de um escravo, ele vai falar de um cidadão que é detentor da cultura tradicional bantu, Umbundu, [que] sai nessas condições – do lugar onde ele vivia, da aldeia – vem para o espaço urbano, mas vivendo na periferia, depois dali migra. Isso diz muito do ponto de vista cultural. Naquilo que nós chamaríamos de traduções interespecíficas, ou as traduções culturais dizem respeito, porque as palavras que fomos reconhecendo de matriz bantu, das línguas bantu no Brasil, ou muitos hábitos, muitos costumes, podem se traduzir a partir desse tipo de orientação que o autor dá, Manuel Rui dá na sua obra. É nesse modo que eu vou tentando ler os autores angolanos.
Então, tem o Manuel Rui; tem o Boaventura Cardoso; o Agostinho Neto; o Uanhenga Xitu; tem jovens escritores que estão escrevendo, uns até a se revelar, em que pedem para fazer prefácio, faço com prazer. Então, eu não tenho, como posso dizer assim, gavetas, nem corredores específicos para fechar ou para regular esse ou aquele exercício de escrita, porque eu entendo sempre que toda proposta escrita é um desafio de leitura, sempre.
DO: Que caminhos o senhor considera fundamentais para o fortalecimento da crítica literária em Angola nos próximos anos?
“Tecnicamente, é essa a função da literatura: nos humanizar e explicar a cultura.”
Por um lado, esse tipo de leitura que eu disse para fazer; por outro, é o compromisso acadêmico e científico da universidade em exercer o seu verdadeiro papel na formação de pessoas que, independentemente de virem a fazer a crítica na universidade, no próprio espaço universitário, ou então na imprensa, ou nos periódicos, mas a universidade forma as pessoas. Que as pessoas tenham um compromisso com a literatura, a partir desse lugar em que a própria literatura explica a cultura ou explica a nossa condição humana.
Tecnicamente, é essa a função da literatura: nos humanizar e explicar a cultura. Então, para mim, é esse tipo de crítica que eu entendo que devemos privilegiar, devemos dar voz. Quer dizer, crítica ou estudo.
DO: O que se espera da crítica literária em Angola?
“Porque a forma como a própria universidade está a se organizar, acredito, que poderemos ter trabalhos mais sustentados e mais bem conseguidos nos próximos tempos, e, desse modo, acredito que a crítica ou a literatura caminharia.”
Eu não estou com dificuldade de fazer previsão. Pelo menos, nós temos que fazer o balanço daquilo que nós já temos em termos de programas curriculares; temos que fazer o balanço daquilo que nós já temos em termos de estudos desenvolvidos nas universidades; temos que fazer o balanço daquilo que a imprensa, as revistas, enfim, vêm produzindo.
Talvez a gente já tenha os indicadores, mas, se nós hoje estamos a conversar aqui e o Luís Mendonça vem, […] talvez outros viessem a ser chamados para isso, que é o exercício da crítica, só isso já mostra que há bases, pelo menos, criadas já para nós podermos refletir ou desenvolver reflexões mais sustentadas sobre esse exercício da crítica. E não acredito que nós nos desviemos dessa tendência de acrescentarmos muito mais naquilo que a gente já tem. Não acredito. Porque a forma como a própria universidade está a se organizar, acredito, que poderemos ter trabalhos mais sustentados e mais bem conseguidos nos próximos tempos, e, desse modo, que eu acredito que a crítica ou a literatura caminharia.
DO: Na Gazeta Lavra & Oficina (Edição nº 001, nov./dez. 2020), em entrevista concedida ao pesquisador João Maria, o escritor Boaventura Cardoso afirma que “faz-nos muita falta a crítica literária e é importante que seja constituída em instituição” (p. 10). De modo semelhante, Michel Kanianga, na Edição nº 004 (maio/jun. 2021), ao discutir a produção do livro em Angola, aponta como ausências no mercado editorial “críticos literários assumidos e empenhados” (p. 19). O senhor concorda com essas perspectivas sobre a fragilidade da crítica literária em Angola? Na sua visão, até que ponto a ausência de uma crítica literária institucionalizada e de críticos literários mais atuantes interfere no desenvolvimento da literatura angolana.
Isso, querido Dalyson, está associado a tudo o que eu disse logo no início. Aquilo que eu falei no início sobre a ausência da crítica sistematizada. Eu disse, porque a crítica no jornal quem fazia eram os próprios escritores e muitos deles sem formação literária no sentido pleno da palavra. Liam, participavam em tertúlias de escritores, mas eram voluntários da literatura. Agora, a sistematização crítica com desenvoltura curricular, de carícia acadêmica e científica não havia na altura, nessa altura.
Embora muitas pessoas também que escreviam, que o fizessem, foram, alguns deles, sobretudo, pessoal da época do Boaventura Cardoso, João Maria Vilanova, ou mesmo, por exemplo, Manuel Rui, foram antigos estudantes de letras. Se não foram, fizeram curso de direito, mas com interesse pelas letras, enfim. Então, esse elemento podia também configurar essa não sistematização. Até se ver que os próprios meios de difusão, os grandes meios de difusão de literatura, de ideia eram os periódicos, no caso, que é esse Lavra & Oficina que está ligado a própria UEA.
Eu não estou a desmerecer o trabalho do Lavra & Oficina, eu estou, precisamente, a olhar a ausência da universidade, da academia nesse cenário. Essa é a coisa que eu queria acentuar na sua pergunta. Só para acrescentar, porque todo o resto é aquilo que eu fui falando desde o início.
BA: Professor, o conceito de angolanidade, ou essa ideia angolanidade, ainda continua tendo importância quando os críticos ou as pessoas que falam de literatura, os próprios escritores, tratam da literatura angolana? Você mencionou o João Maimona que parece que é considerado um autor que está muito próximo da França. Imagino que há outros casos assim, talvez a Paula Tavares, por exemplo, que passou a publicar em Portugal já há um bom tempo. Esse conceito de angolanidade continua tendo importância e sendo uma espécie de vetor para separar aquilo que é propriamente angolano e, portanto, merece consideração, valorização e aquilo que se afasta e, portanto, não deve ter tanto espaço?
“mas eu não sou dos militantes da angolanidade, porque, para mim, senão, poderíamos aplicar isso a todos os outros países“
Eu, professor Bernardo, sou suspeito, porque eu tenho entrevistas em que eu mostro a minha discordância de olhar para a literatura angolana a partir desse viés da angolanidade. Isso é uma forma de regular a literatura por matizes identitários. Eu nem sei se a literatura obedeceria… Se a língua não vai por aí, imagino a literatura. Não sei.
Há pessoas que ainda fazem uso disso. Há quem construiu toda uma vida a olhar para a literatura a partir desse viés, mas eu não sou dos militantes da angolanidade, porque, para mim, senão, poderíamos aplicar isso a todos os outros países: a brasileiridade, a portugalidade, a americanidade, a aerianidade, a chinesidade. Quer dizer que íamos com a russiedade ou a união soviéticaidade, por exemplo; íamos com todas essas idades. Não é desse modo que eu vejo, porque também os critérios, os instrumentos, as ferramentas teóricas que são usadas para fazer as análises a partir desse viés são instrumentos que, para mim, não são muito eficazes e deixam muita coisa de fora.
Quando nós estamos a falar da angolanidade, estamos a priorizar o quê? O resultado do que é o diálogo entre aquilo que as tradições culturais produzem ao se encontrar com a cultura europeia ou ocidental, esse resultado é o que nós chamamos de angolanidade? Ou o que é isso, angolanidade? É fazer uma literatura que seja voltada para o imaginário português como alinhamento de correção ou de convenção? Ou ser eminentemente bantu e que não aceite nenhum tipo de contaminação ocidental? O que é isso, angolanidade? Então, para mim, isso não ajuda muito a explicar a complexidade que é abordar na cultura, ou seja, abordar a literatura explicando a cultura. Esse termo não serve. Embora haja estudiosos angolanos, escritores angolanos que ainda se escuram nisso.
BA: Muito bem. Pegando uma coisa que o Helder Simbad disse na entrevista da semana passada para a gente. Ele falou sobre um escritor que a gente aqui conhece pouco, mas que parece que está sendo muito lido, tem publicado bastante, em Angola, o João Tala. Queria que o senhor nos ajudasse a compreender esse fenômeno. Por que um escritor lido e badalado em Angola tem uma presença no cenário atual e não chega ao Brasil, enquanto outros chegam e são valorizados aqui? O que acontece?
Aí voltamos, Professor, àquela questão que eu colocava: que nós, os escritores angolanos, só acreditamos que somos quando recebemos a bênção de um professor brasileiro, um estudioso brasileiro ou um estudioso português.
Não, mas o João Tala é lido aí; ele até morou aí, ele conhece, tem pessoas aí, é lido. Agora, os estudos literários aí no Brasil, os estudos africanos, é aquilo que eu disse também na minha entrevista. Agora, o João Tala não é mau escritor; é bom escritor. E essa badalada que o Helder disse é também no âmbito do engajamento que eles têm. O Helder Simbad faz parte do grupo Litteragris e há outros grupos, o Lev’Arte, enfim, há grupos aqui de jovens associados, de escritores, como os que começaram nos anos 80, à semelhança do João Tala das Brigadas.
E o João Tala tem uma relação muito próxima com esses jovens. Então, ele lê os jovens, e os jovens o leem nesse sentido. Agora, eu não sei por que ele precisou reivindicar a leitura, ou aquilo que é repercussão de leitura, que o João Tala tem aqui, que seja o mesmo no Brasil, quando eles estão fazendo trabalho de leitura. Quem é que eles acham que deve ler? Aí voltamos,Professor, àquela questão que eu colocava: que nós, os escritores angolanos, só acreditamos que somos quando recebemos a bênção de um professor brasileiro, um estudioso brasileiro ou um estudioso português. Então, eles o leem. Se eles acham que ele é um bom escritor, por que eles não levam isso avante?
Então, esperam que venha um brasileiro para abençoar. Ele não é um mau escritor. O João Tala é um bom escritor. Ele é até meu amigo; nos relacionamos muito bem, e há estudos muito importantes feitos acerca da obra dele. Há prêmios que ele tenha ganho já. Então, eu não sei por que eles agora tornaram-se advogados de João Tala nesse sentido. Não sei, talvez seja um paradoxo, como aquele que eu dizia.
Eles dizem: “Vamos agora para o Brasil buscar bênção, porque senão ele pode não ser o escritor que a gente quer que seja”. Aí, com aquilo que eu falava também atrás, vejam agora como a própria crítica literária angolana ainda vai tendo essa demarcha tímida, de recuo, tipo os movimentos do caranguejo, para trás, para frente. É mais ou menos isso. Porque o Helder não precisava fazer isso. Eles estão lá, engajados e fazem trabalho crítico, e eles assumem isso nas redes sociais, nos diferentes programas que participam. Era assumir só que liam o João Tala e ponto final. Por que a gente espera que um professor brasileiro faça? Era importante também a questão ser colocada nesse módulo.
BA: Não foi o que eu entendi que ele queria fazer não, sabe, professor? Ele não estava reivindicando que o João Tala fosse mais conhecido no Brasil, ele fez uma listagem de autores que estão sendo bastante lidos em Angola hoje. Nessa listagem, o primeiro nome que ele destacou foi João Tala. Eu procurei livros do João Tala no Brasil e não encontrei. Se eu procurar o Boaventura Cardoso, esse, por exemplo, Margens e travessias, foi publicado pela editora Kapulana. [A Kapulana] Tem publicado muita coisa dos países africanos de língua portuguesa. Mas o João Tala, se eu quiser comprar um livro dele, vou ter que comprar um livro nos sebos virtuais. Nesse sebo, Estante Virtual, talvez você conheça, é onde eu encontrei o livro dele, que parece que é publicado em Angola e é vendido aqui.
“e eu vou tomar aqui uma palavra que uma vez o Pepetela disse: “Se o propósito é escrever, a única coisa que eu tenho que fazer é escrever. É publicar”
Se nós olharmos para a literatura feita por negros, que lugar é que no Brasil tem? Eu já fui a feiras de livros e sei com quem me encontrei; já fui a encontros de escritores e sei com quem me encontrei. E quando aparecesse… Eu, a primeira vez que estou em um evento em São Paulo, quando me apresentam o Ricardo Aleixo, de Minas Gerais, foi uma gota no oceano. O Ricardo Aleixo, de Minas Gerais, Belo Horizonte. E eles disseram: “Não, Ricardo, olha, aqui tem um escritor angolano, negro, Abreu Paxe…”. Essas coisas acontecem mesmo assim.
O Boaventura Cardoso, eu conheço bem a história da publicação de Margens e travessias, pela Kapulana, no Brasil; em Portugal, foi publicado também por uma editora, acho que Guerra & Paz; e aqui em Angola, pela Mayamba. O Boaventura Cardoso é quem queria que aquilo se realizasse. Nós sabemos quem é o Boaventura Cardoso. E aquilo que eu dizia: os próprios professores, os estudiosos das literaturas africanas no Brasil são amigos dos escritores daqui. Há essa coisa, né? Até eu, Abreu Paxe, se existem estudos, não sei. Tenho que procurar, mas eu também não sei, pelo menos, não sei.

Mas também… O João Tala é mais lido, porque o João Tala é das tertúlias deles. Não é mais lido porque… é das tertúlias deles. As tertúlias que eles fazem, eles nomeiam o João Tala como leitura. Então, também são aspectos que a gente também pode tecnicamente questionar. Até para eles explicarem por que o João Tala é mais lido e não, por exemplo, o Mendonça ou o Maimona ou, por exemplo, um Abreu Paxi ou o Ruy Duarte. Por quê, por exemplo? Ele também, talvez, precisava responder esse tipo de perguntas.
O sentido não foi esse, na verdade. Se bem que isso também tem sido, porque eu já vi outras pessoas fazendo esse tipo de afirmações. Porque eu continuo a achar que se o propósito é escrever, e eu vou tomar aqui uma palavra que uma vez o Pepetela disse: “Se o propósito é escrever, a única coisa que eu tenho que fazer é escrever. É publicar”
Então, depois eu deixo que os outros façam com aquilo que eu proponho, quer dizer, que entenderem o que devem fazer, desde que seja dentro daquilo que se recomenda. Agora, não sou eu que vou escrever, depois, também tenho que estar a dizer quem é que me deve ler, quem é que me deve ler, se me deve ler, como me deve ler ou como. Depois, ir para Portugal e dizer que vocês têm que me ler; se não me lerem, eu escrevo, por exemplo. Enfim, eu acho que, às vezes, também entramos nesse tipo de discussões meio líricas, sem necessidade..
Agora, a questão que avançou é interessante. Eu também, sempre que sou abordado, os amigos que me abordam, como o Ricardo Aleixo, me perguntam: “Abreu, você até agora não foi publicado no Brasil?” “Sim”.
Imagina, se o Ricardo Aleixo, se o Professor Bernardo, se o Dalyson, se o Claudio Daniel, por exemplo, não diz “Por favor, há de um autor que tem esse livro, que a gente acha que pode fazer um projeto editorial interessante, não sei o quê.”, as editoras também podem não apostar, por exemplo.
Então, o que nós precisamos, na verdade, tecnicamente, é isso; é mesmo esse compromisso que nós temos. Agora, é verdade que esse aspecto que avançaram, que nós fomos conversando, é importante termos conversado também para consolidarmos, ou seja, para aprimorarmos, sistematizarmos, talvez, usando a palavra do Dalyson, consolidar esse propósito, que é estudar e criticar a literatura angolana. Mas eu não gosto muito de discursos de tipo de vitimização, assim; não gosto muito.
Agora, é verdade que as obras têm que circular, as ideias têm que circular, os livros têm que estar lá onde devem ser lidos, isso é verdade. Mas agora, quem é que o vai fazer? A Kapulana deve ter os autores preferidos dela, como a Caminho tem, como as diferentes editoras têm, já devem ter.Nós também, aqui em Angola, agora temos muitas editoras. Talvez essas editoras fossem e fizessem esse trabalho também no Brasil, porque acho que não as impediriam de fazer isso.
Chegavam lá e publicavam, por exemplo. Não sei, talvez pensar nisso, Professor Bernardo.
Referência
PAXE, Abreu. Abreu Paxe. In: LUSOFONIA POÉTICA. Disponível em: https://www.lusofoniapoetica.com/angola/abreu-paxe. Acesso em: 14 de junho de 2026
- Entrevista feita por Dalyson dos Santos Oliveira e Bernardo Nascimento de Amorim ↩︎
